Rodada Taubaté

Leitor e admirador das duas gerações de brilhantes escritores Verissimo, tomei a liberdade, algum tempo atrás, de, viajando pelo Vale do Paraíba, entrar em Taubaté para visitar a famosa personagem do Luis Fernando. Muito bem recebido, a distinta senhora ofereceu café, um arábica das lavouras irrigadas do seu neto, no sul da Bahia. Segundo ela, um dos melhores aromas da bebida na região. Conhecedora do meu interesse em negociações comerciais, conversamos longamente sobre a convenção de 1906 realizada na cidade, tão importante para a cafeicultura e, consequentemente, para a economia. Destacou que as medidas aprovadas na ocasião não estariam de acordo com as regras multilaterais de comércio atuais, porém garantiu que teriam sido tomadas de qualquer maneira, dada a crise econômica do momento.Continuou discorrendo sobre sua intenção de ligar para o presidente Lula propondo que o Brasil convocasse uma reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), a ser realizada em Taubaté, para finalizar as negociações iniciadas em 2001, no Qatar. Tinha a certeza de que Taubaté, um século depois, de novo poderia contribuir para obter o tão almejado acordo de Doha, garantindo o primeiro e talvez único êxito comercial de sua gestão.Lembramos o início da rodada, ainda no governo FHC, realizada sob o impacto do atentado em Nova York, poucos meses antes, que ofereceu esperanças para o desafio de trazer equidade ao comércio agrícola. Presente no Qatar naquela data, eu tinha retornado com esperanças renovadas de ver maior equidade no ambiente econômico do comércio internacional. Concordamos que parecia que os países desenvolvidos finalmente compreendiam a necessidade de enquadrar os atuantes grupos de pressão de agricultores locais, oferecendo oportunidades de crescimento a todos no mundo crescentemente globalizado.Acompanhávamos as negociações agrícolas desde 1986, quando em Punta del Este a Rodada Uruguai tinha começado com forte discurso do representante do presidente Reagan, garantindo que os EUA desejavam eliminar totalmente os subsídios agrícolas. Tínhamos - eu e a senhora de Taubaté - acreditado, na época, nessa possibilidade. Mas o que vimos depois é que a Rodada Uruguai, em 1994, produziu um acordo sobre agricultura que cristalizou os níveis de subsídios praticados na época.Lembrou ela que mais importantes foram os acordos sobre propriedade intelectual e serviços, que, como vinha ocorrendo desde o início do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (Gatt), em 1948, era a maneira de os países desenvolvidos introduzirem mundo afora seus interesses econômicos. Embora ambos concordássemos sobre a necessidade de regras multilaterais, tínhamos divergências sobre se a troca referendada em Marrakesh havia sido equilibrada para o Brasil.Falei da esperança que derivara da reunião ministerial da OMC em Cancún, quando o Brasil liderou a formação de importante grupo de países em desenvolvimento que tinha como mote impedir a continuidade dos subsídios à exportação agrícola. O confronto ocorrido no México havia, porém, produzido resultados, pois a União Europeia (UE), poucos meses depois, anunciou em reunião na Irlanda que aceitaria a total eliminação dos subsídios às exportações agrícolas.Eu passara dias alegres no México, festejando com organizações não-governamentais o primeiro de muitos resultados positivos do contencioso do algodão, produto símbolo da reunião. Observei que o Brasil parecia perplexo com o sucesso obtido na ocasião. Depois, comecei a ficar em dúvida se teriam compreendido o alcance do confronto e a real consistência do grupo de países reunidos para barrar em Cancún a repetição da estratégia conjunta de EUA e UE, o famoso acordo de Blair House, que fez tanto sucesso numa das reuniões da Rodada Uruguai.Observei à minha nova amiga que eu voltara completamente desanimado de Hong Kong. Não havia compreendido absolutamente nada do que teria pretendido o Brasil naquela última reunião ministerial da OMC. O Brasil chegara com uma proposta audaciosa em acesso a mercados e inexplicavelmente omissa em subsídios, confrontando, sem sucesso, a UE por três dias. O País saiu de lá ovacionado pelo G-90, grupo heterogêneo de países pouco desenvolvidos que não têm o mesmo interesse e prioridade do Brasil.Encontrei em Hong Kong dificuldade em explicar a organizações não-governamentais, que tinham aplaudido o Brasil em Cancún o abandono da defesa do algodão. A ideia de que esse produto, símbolo da iniquidade do comércio internacional, ficaria restrita a reuniões jurídicas em Genebra, deixando de representar instrumento de comunicação da capacidade de destruição infligida pelos subsídios dos países ricos aos mais pobres, era muito medíocre. Perdemos os que sonhamos com a equidade, uma importantíssima alavanca para a necessária transformação.Já com a necessidade de terminar tão agradável conversa, pois meu destino ainda estava distante, observei à senhora de Taubaté que parecia que os responsáveis pela política externa do presidente Lula se tinham apropriado dos músculos que a pujança da agricultura do Brasil havia conquistado e que eles estavam utilizando essa liderança brasileira para uma estratégia política nebulosa e pouco debatida com a sociedade, oferecendo baixa prioridade a questões comerciais. Havia perdido a esperança de ver equidade no comércio agrícola internacional no curto prazo. Os subsídios continuavam e a grande crise mundial só fortalecia o protecionismo. A prioridade dos países ricos certamente era garantir a estabilidade do fragilizado sistema financeiro e o combate ao crescente desemprego.Discordou a simpática velhinha, garantindo que a reunião ministerial da OMC a ser realizada em Taubaté, como iria sugerir ao presidente Lula, concluiria a Rodada Doha, garantindo avanço na equidade do comércio. Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), foi secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura

Pedro de Camargo Neto, O Estadao de S.Paulo

18 de julho de 2009 | 00h00

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