Rota do tráfico

A consolidação do Brasil como uma das principais rotas de tráfico da cocaína produzida nos Andes para a Europa, comprovada por um relatório da agência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre drogas e crimes, era uma questão de tempo. Com o aumento da repressão ao tráfico nos países antes utilizados como rota da droga para a Europa, como México, Panamá e República Dominicana, os traficantes que operam na América Latina tiveram de encontrar outros caminhos. Os cerca de 17 mil quilômetros de fronteiras do Brasil com dez países sul-americanos, até agora muito pouco vigiados, e a ineficácia das políticas de prevenção e combate às drogas facilitaram a escolha dos criminosos.

, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

Os resultados apresentados há pouco pela agência da ONU não deixam dúvidas quanto à importância do território brasileiro para o tráfico de drogas. O Relatório Mundial de Drogas informa que o número de carregamentos de cocaína procedentes do Brasil apreendidos na Europa saltou de 25 em 2005 para 260 em 2009.

O fato de esse aumento ter ocorrido num período em que a agência da ONU detectou uma redução na área cultivada com coca (de 221,3 mil hectares em 2000 para 149,1 mil hectares em 2010, diminuição de 33%) mostra que os traficantes concentraram boa parte de suas operações no País. Mesmo assim, o Brasil não é o principal ponto de embarque da cocaína apreendida na Europa. Esse posto cabe à Venezuela; em seguida vêm o Equador, o Brasil e a Argentina. Mas o Brasil é o único país sul-americano do qual partiu cocaína apreendida na África em 2009.

O estudo mostra também uma mudança na forma como a cocaína é levada do Brasil para a Europa. O volume total apreendido passou de 330 kg em 2005 para 1.500 kg em 2009. Ou seja, o peso médio de cada carregamento apreendido na Europa diminuiu de 13,6 para 5,8 kg. Mais pessoas estão transportando cocaína do Brasil para a Europa, mas cada uma leva, em média, uma quantidade menor da droga, o que torna mais fácil o tráfico e mais difícil a ação policial.

Outro dado que mostra a importância que o Brasil passou a ter no tráfico mundial de drogas é o volume de drogas apreendido dentro do território nacional. Em 2004, a polícia brasileira apreendeu 8 toneladas de cocaína e, em 2009, 24 toneladas. Ou seja, as apreensões triplicaram em quatro anos, o que indica movimentação bem maior da droga em território nacional.

A maior parte da droga que entra no Brasil é destinada ao mercado externo. As estimativas da agência da ONU indicam que o Brasil tem cerca de 900 mil usuários de cocaína ou de derivados de coca, como crack. Embora represente o maior contingente de usuários da América Latina, esse número, se comparado com a população, deixa o Brasil atrás da Argentina, do Chile e do Uruguai.

A importância que o Brasil passou a ter nas rotas do narcotráfico levou o governo americano a advertir o brasileiro para a necessidade de negociar mais intensamente com países da América Central sobre medidas de combate ao tráfico de drogas e de aderir ao acordo sobre o tema assinado pelos Estados Unidos com países da África Ocidental.

Além de agir no plano diplomático, o governo brasileiro precisa ser mais eficiente no combate ao tráfico. Nesse campo, sua ação tem sido insuficiente e ineficaz, e os números divulgados pela agência da ONU comprovam isso.

Só recentemente o governo decidiu agir de maneira coordenada para controlar melhor as fronteiras, por meio de plano que prevê a ação conjunta de todos os órgãos federais de segurança pública e das Forças Armadas, sob um comando unificado. Além do contrabando de mercadorias, a falta de controle nas fronteiras brasileiras tem estimulado o tráfico de drogas e de armas.

Órgãos estaduais também poderão participar dessa ação, por meio de convênio com o governo federal. Mas o êxito dessa política depende também, e muito, da cooperação dos governos dos países vizinhos, alguns dos quais são os maiores produtores de drogas.

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