Roteiros para sair da crise

Quanto mais avança o noticiário sobre a crise na Europa, mais se insiste em fazer de conta que o imbróglio financeiro nada tem que ver com o mundo concreto, real - seria apenas consequência de ações no universo dos papéis financeiros, regido por uma lógica separada. De certa forma, é mesmo um universo fechado: que tem que ver com a realidade concreta um mundo que reúne US$ 592 trilhões em ativos financeiros - a não ser o estímulo a um consumo insustentável? Como entender que se chegue a uma crise que leva à manchete deste jornal, na última sexta-feira, sobre a insustentabilidade do crescimento projetado para o PIB brasileiro este ano? Mas ela levanta uma ponta do véu: o crescimento econômico pode ser problemático se conseguido a qualquer preço. Principalmente se for insustentável em termos de recursos naturais.

WASHINGTON NOVAES, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2010 | 00h00

Nas semanas que antecederam o clímax (até aqui) do drama grego e europeu, o noticiário esteve repleto de outras notícias indicadoras da gravidade, no mundo todo, da crise de recursos naturais e do agravamento de fenômenos climáticos. Um relatório da Global Footprint Network (GFN) afirma que não se atingirá este ano a meta, assumida em 2002 pelos líderes mundiais, de reduzir significativamente a perda da biodiversidade (Estado, 30/4). E o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Achim Steiner, não hesita em dizer que as razões fundamentais para o malogro estão no campo da economia: "A humanidade criou a ilusão de que podemos seguir sem a biodiversidade, que ela é periférica ao nosso mundo contemporâneo, quando a verdade é que precisamos cada vez mais dela, num mundo que caminha para ter 9 bilhões de habitantes." Ahmed Djoghlaf, secretário da Convenção da Diversidade Biológica, informa que continuamos a perder a biodiversidade num ritmo nunca visto na História - é o que está escrito num relatório de 110 países sobre cenários para o século 21. Esses cenários mostram que o impacto tende a aumentar neste século, com a perda de hábitats, e pode ser irreversível. A expansão da produção de biocombustíveis pode agravar o quadro se não for bem planejada em termos espaciais.

Para reverter esse quadro serão necessárias mudanças profundas nos padrões de consumo atuais, dizem os cientistas. E, aí, mais uma vez se pode lembrar o que está nos relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud): se os padrões de consumo de norte-americanos, europeus e japoneses (eles consomem 80% dos recursos naturais do mundo) fossem ou forem estendidos a todos os países, seriam necessários mais dois ou três planetas como a Terra para fornecê-los. Mas é possível dizer também que essa conclusão pode ser estendida a qualquer país onde se compare o consumo dos segmentos de maior renda com os de menos recursos financeiros.

"A biodiversidade não pode ser vista como separada da economia", dizem os cientistas do GFN, porque ela pode influenciar tudo - da saúde à renda. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, acrescenta que "ela não pode ser deixada para depois de outros objetivos - porque é a base sobre a qual eles repousam". E as perdas nessa área já estão em pelo menos entre US$ 2 trilhões e US$ 4,5 trilhões, considerados apenas os desmatamentos e a degradação florestal, informou Afra Balazina neste jornal (11/5). Convém lembrar neste ponto que o Brasil já perdeu 17% da cobertura florestal na Amazônia. No mundo, segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, o desmatamento, embora tenha caído, ainda está na faixa dos 130 mil km2 por ano, equivalentes a mais de metade da área do Estado de São Paulo. Outro estudo, publicado pela revista Plus One no início deste mês, aponta o Brasil como "o país com maior impacto absoluto ao ambiente", na frente dos EUA e da China. Foram considerados a perda de florestas, o uso de fertilizantes, ameaças à biodiversidade, emissões de gases poluentes e qualidade da água (Estado, 10/5).

Que se vai fazer? Está prevista para setembro uma reunião da própria Assembleia-Geral da ONU, que antecederá outra em Nagoya, no Japão, na qual se pretende traçar um plano estratégico que enfrente a questão. E que seja discutido em 2012 no Rio de Janeiro - quando se realizará a Rio +20 (referência à Eco 92, quando foram assinadas as convenções sobre diversidade biológica e clima) -, juntamente com os problemas muito graves da desertificação, que continua a avançar no mundo.

É evidente que tudo é muito difícil nesse caminho, que exigirá a ampliação de áreas protegidas, programas de proteção a espécies já vulneráveis, manejo florestal adequado (se é que é possível), agricultura sustentável, fim da sobrepesca e muito mais. Na verdade, mais eficiência no uso da terra, da água, da energia e de todos os materiais, inclusive para atender à população crescente do mundo. Mas como fazer isso tudo sem mexer com a distribuição do consumo e da renda no mundo (também concentrada, segundo o Pnud, em 80% nos países industrializados)? Como conseguir criar a consciência necessária sem mudanças muito fortes na própria comunicação? Mais ainda: como avançar, neste momento em que cada país tenta salvar-se primeiro do fantasma financeiro que se abate sobre a Europa e ameaça o mundo todo?

O Brasil vai se comportando de acordo com as regras clássicas para impedir o contágio - cortando despesas, contendo a demanda, trabalhando com juros. Mas é pouco: é preciso avançar com novas estratégias, adequadas para um país com o potencial de recursos naturais que temos - território, água, biodiversidade, energias "limpas" e renováveis. Sob este aspecto, governos federal e estaduais, assim como os próprios candidatos à sucessão, ainda estão devendo à sociedade um roteiro capaz não apenas de nos livrar da crise, mas de fazer dela uma oportunidade excepcional para outros formatos e outros tempos.

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