Ruas inseguras

As chuvas dos últimos dias na cidade de São Paulo evidenciam o descaso da Prefeitura em relação à poda preventiva das árvores. O temporal de anteontem, por exemplo, provocou a queda de pelo menos 286 árvores em vários pontos da cidade - um tronco caiu em um ramal da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e nove estações foram fechadas, afetando 40 mil passageiros da Linha 10-Turquesa. Isso sem falar no acidente que comoveu a cidade, ocorrido três dias antes do Natal, e provocou a morte do administrador de empresas Ricardo Galvão Mendes, de 33 anos. Uma árvore da Rua Itacolomi não resistiu à chuva e despencou sobre o táxi no qual Ricardo havia entrado fazia cinco minutos, matando-o instantaneamente. Só nesta rua do bairro de Higienópolis caíram mais outras três grandes árvores - uma desabou sobre uma escola infantil, onde felizmente, por causa das férias, não havia ninguém.

O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2014 | 02h03

O descaso da Prefeitura com as árvores ganha contornos dramáticos quando se tem em conta que, na cidade de São Paulo, apenas o Município pode podar e cortar as árvores que estão nas vias públicas. Quando a Prefeitura não realiza esse serviço de forma responsável, põe diretamente a vida da população em risco. Ela deixa o cidadão à mercê da sorte, sem qualquer meio para se defender.

Os acidentes e transtornos causados pelas recentes chuvas na cidade mostram que é urgente um novo padrão de atuação do Município. Árvores podem ser repostas; vidas humanas, não. Esse é um princípio básico, que a Prefeitura parece desconhecer - ou fazer vista grossa. Não se pode protelar o corte de árvores que dão sinais de não resistirem a uma chuva pesada. Os recentes números de árvores caídas mostram que o atual critério de decisão da Prefeitura sobre quais árvores devem ser cortadas está equivocado, e é preciso mudá-lo sem delongas.

O respeito ao meio ambiente começa pelo respeito à vida humana. Qualquer outro critério é claramente insuficiente - e irresponsável. Pôr a vida humana como prioridade é sinal elementar de prudência para qualquer governante. Infelizmente, a Prefeitura da cidade de São Paulo parece que ainda não entendeu essa hierarquia de valores, e a população vem sofrendo com essa imprudência.

O problema na cidade de São Paulo se agrava diante do fato de que a rede elétrica é suspensa, e não subterrânea - como ocorre na maior parte das grandes cidades no mundo. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), apenas 7% dos fios da cidade de São Paulo estão enterrados. Dessa forma, árvores vulneráveis às chuvas se transformam num gravíssimo risco para a população, para o transporte público, para os carros, para as vias públicas. Segundo a AES Eletropaulo, no temporal de anteontem, 128 árvores atingiram a rede de distribuição. As chuvas passam a ser sinônimo de calamidade pública - o que está longe do que se espera de uma cidade como São Paulo.

O enterramento dos fios da rede elétrica exige investimentos não pequenos, além de tempo. No entanto, essas circunstâncias não são razão para considerar essa tarefa como irrealizável. Faz falta, isso sim, planejar. Faz falta não ter uma administração pública acanhada, que se esquiva dos reais desafios da cidade.

É no mínimo estranho que uma Prefeitura, dizendo-se amiga do pedestre e do ciclista, transforme a via pública num local de alto risco para a vida humana. Governar uma cidade é muito mais do que pintar ruas e calçadas ou levantar bandeiras em prol de determinados movimentos, de duvidoso alcance. Exige responsabilidade. Exige prudência. Exige competência. Exige respeito pela vida humana.

A população da cidade de São Paulo espera da atual gestão da Prefeitura um mínimo de coerência com o seu slogan: "Viver a cidade que a gente ama. Fazer a São Paulo que a gente quer". A população quer voltar às ruas sem medo. E para tanto faz falta que a Prefeitura comece por cumprir uma tarefa que só ela pode cumprir: cortar e podar de forma responsável as árvores das vias públicas.

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