Rumo ao novo equilíbrio global

A recuperação da economia mundial vai depender dos países emergentes, como China, Índia e Brasil, assim como dependeu a sustentação da atividade durante a crise. No ano passado, os governos dos países ricos estavam juntando os destroços da crise financeira e gastando centenas de bilhões para salvar bancos e indústrias e atenuar a recessão. Neste ano, começarão a desmontar os incentivos e a planejar a arrumação das contas públicas, sobrecarregadas de novas dívidas. Com a redução dos estímulos internos, essas economias terão de contar com outros mercados para aumentar a produção e o emprego.

, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2010 | 00h00

Esses mercados serão, naturalmente, os dos países emergentes. "Emergentes", neste caso, significa principalmente China, mas outras economias em desenvolvimento poderão ter, também, uma importante participação no jogo.

A posição do Brasil no novo arranjo dependerá da qualidade da política econômica seguida em Brasília. A importação tem crescido bem mais velozmente que a exportação, o déficit em conta corrente aumentou e essa tendência já é preocupante. Mantido o padrão da política fiscal, será grande o risco de uma deterioração maior das contas externas.

A necessidade de um novo equilíbrio é a mensagem básica do FMI, em sua avaliação das perspectivas globais de 2010 e 2011. A nova fase de expansão da economia mundial vai depender de um rebalanceamento das políticas. Emergentes deverão dinamizar o consumo interno e importar mais. Os EUA terão de adotar o padrão oposto, com mais produção para fora e menor expansão do consumo. Essa orientação pode valer para outros países desenvolvidos, mas a grande mudança proposta para o mundo rico ? e de certa forma já em curso ? vale principalmente para a economia americana.

A troca de papéis havia sido apontada em 2009 como essencial para o retorno ao crescimento. A recuperação seria insustentável sem a eliminação dos grandes desequilíbrios internacionais. O mais importante, há vários anos, é o do comércio entre EUA e China. A única novidade, agora, é um argumento de reforço: países superendividados terão de ser mais austeros internamente e mais dependentes da demanda exterior.

Na China, a mudança dependerá não só de uma ampla realocação de capital e de mão de obra, mas também da alteração na política de câmbio. As autoridades chinesas têm indicado, nos últimos meses, a disposição de liberalizar o câmbio e permitir a valorização do yuan. Mas têm repelido as pressões de outros governos e reafirmado o propósito de agir segundo um ritmo próprio. Assim, não há como prever com um mínimo de segurança como será a evolução da moeda chinesa nos próximos 12 ou 24 meses.

Mas a transformação ocorrerá, segundo avaliam os técnicos do FMI. A principal mudança na área cambial, a partir de agora, será entre moedas do mundo avançado e dos países emergentes, disse nessa quarta-feira o economista-chefe do Fundo, Olivier Blanchard. Ele se referia, é claro, principalmente à relação das moedas ocidentais com o yuan.

Se o governo brasileiro mantiver a política fiscal expansionista, com despesas de custeio em crescimento, a contenção dos preços continuará dependendo, em grau excessivo, da política monetária, baseada principalmente nos juros altos.

Será mais penoso o controle da demanda interna. Além disso, o poder de competição do produtor brasileiro continuará prejudicado por uma conjunção de fatores perversos: o peso dos impostos, porque haverá pouco ou nenhum espaço para a desoneração fiscal, e a valorização do real, porque os juros permanecerão como um atrativo para o capital estrangeiro. Quanto maior o ingresso de dólares, mais a moeda nacional será empurrada para o alto, encarecendo o produto nacional.

Ninguém pedirá licença ao Brasil para levar adiante o novo jogo do equilíbrio mundial. Mas o governo brasileiro pode, com algum bom senso, garantir para o País uma tarefa melhor que a de corrigir, com maiores importações, o desajuste dos EUA e de outros países desenvolvidos. O Brasil não tem folga para isso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.