Russomanno aproveita vácuo eleitoral na periferia

PT se descuida de áreas onde costuma vencer e vê 'defensor dos consumidores' avançar

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2012 | 03h04

Já escolheu candidato a prefeito? "Celso Russomanno." Nas últimas eleições votou em quem? "Na Marta, no Lula, Dilma...". Sabe quem é o candidato do PT neste ano? "O Haddad, não é?". As respostas seguiam o mesmo padrão na medida em que a reportagem avançava por Ermelino Matarazzo, Cidade Tiradentes e Guaianases, na zona leste de São Paulo, tradicional reduto petista onde o candidato do PRB segue na liderança das intenções de voto.

Russomanno tem 43% dos eleitores no extremo leste e 34% no leste da cidade, segundo a última pesquisa Ibope/Estado/TV Globo, do dia 13, contra 17% e 15% de Fernando Haddad (PT), respectivamente. A aposta do PT era de que a candidatura de Haddad decolaria na medida em que ele se tornasse conhecido com a exposição no horário eleitoral ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a entrada da presidente Dilma Rousseff e da ex-prefeita Marta Suplicy. Não aconteceu. Haddad também está atrás em outros redutos petistas, como o extremo sul.

O PT entrou na disputa acreditando que essas "franjas", os extremos da cidade que votaram massivamente em nomes do partido nas últimas três eleições municipais e nas federais, já estavam ganhas. A escolha do acadêmico Fernando Haddad como candidato em 2012 seria estratégica para ganhar "a mancha azul" do centro expandido e a classe média. Nem uma coisa nem outra se confirmou.

Na avaliação de um dirigente do partido, Haddad teve dificuldade em convencer a classe média, um eleitorado cujo poder de compra aumentou nos últimos anos e para o qual Russomanno se apresenta como o paladino da defesa do consumidor, enquanto as classes mais baixas, que historicamente votam no PT, não enxergam no acadêmico um candidato petista.

"A Marta, sim, né? Aquela era petista mesmo, vestia a camisa da periferia", diz a comerciante Adriana Pereira, de 33 anos. Historicamente petista, sobrinha de um candidato a vereador do PC do B, da coligação de Haddad, ela diz que votará em Russomanno.

"O Celso (Russomanno) tem essa relação com o consumidor, vai trazer mais polícia para o bairro", acredita Adriana, citando uma das promessas do candidato do PRB, que ela diz conhecer "há muito tempo, da TV Record". "Ele já provou que é pulso firme", afirma. "Já o Haddad esteve no bairro, é um homem simpático, mas eu não tenho nenhuma referência dele."

Cara do partido. A duas semanas do primeiro turno, o PT discute mudanças na estratégia original da campanha para "associar Haddad ao partido". Em outras palavras, para deixá-lo mais a cara do PT, além de relacionar sua imagem a marcas da administração petista na esfera federal, como Bolsa Família e o aumento do emprego formal. O programa eleitoral deverá ter "um discurso mais petista".

A dianteira de Russomanno, a dificuldade de fazer Haddad alcançar os índices históricos do PT e a expressiva rejeição de José Serra (PSDB) têm a ver, nas palavras do historiador Boris Fausto, em entrevista ao Estado publicada no domingo, com o surgimento de um "cidadão consumidor" no lugar do "cidadão eleitor propriamente dito, que hoje etiqueta Russomanno como uma novidade na política". Com Serra haveria uma fadiga de material, associada à desaprovação de seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) - no último Ibope, 48% dos entrevistados consideraram a gestão ruim ou péssima. O eleitorado disposto a renovar vê Russomanno como primeira opção, e não Haddad.

"Russomanno é novo e, pelo que vejo dos outros, não há nada de interessante. O Haddad nem sei quem é", diz o jornaleiro Nilton de Oliveira, de 48 anos, há 26 na zona leste. Ele não soube dizer qual seria o partido do candidato do PT, embora tenha votado na sigla nas últimas eleições.

O desafio inicial do PT de apresentar Haddad ao eleitor parece ter sido cumprido. A maioria dos entrevistados no extremo leste sabe que o ex-ministro é do PT, e não muito mais que isso. Russomanno, embora tenha menos exposição na propaganda eleitoral, conta com quase 20 anos de fama como "repórter de defesa do consumidor".

"O Russomanno é novidade, mas não é novo, né? Sempre esteve envolvido com o povo nas reportagens que ele fazia", diz a gerente de uma loja de moda feminina em Ponte Rasa, Janaína da Silva, de 34 anos. Joana Leite, Janete Ramos e Geila Gama, as três vendedoras que trabalham para ela e votaram no PT nas últimas eleições, dizem conhecer Russomanno da TV e o associam ao direito do consumidor, embora às vezes o confundam com direito trabalhista.

O esforço nessas áreas historicamente petistas será reforçado com "mutirão de panfletagem na zona leste", mais carreatas e caminhadas como a que Haddad fez na sexta-feira, em São Miguel Paulista. O extremo leste receberá os dois últimos comícios do candidato, no dia 29, segundo o coordenador da campanha de Haddad, Antonio Donato. "Na periferia, o sentimento anti-Serra e Kassab é muito forte. É evidente que o eleitor quer mudança, mas só vai se posicionar nos últimos dez dias", acredita.

O esforço da reta final de campanha, a partir de depoimentos como o da ambulante Maria das Dores Lima Leite, de 60 anos, no entanto, parece ter chegado tarde. Ela está trabalhando amparada por uma liminar da Justiça, após a Prefeitura tentar tirá-la do local onde monta diariamente sua barraca de brinquedos e declara voto em Russomanno, que prometeu não tratar "ambulante como bandido".

"A Marta ajudou muito a gente. Por isso, eu sempre votei no PT", conta Maria das Dores. Perguntada sobre o atual candidato do partido de sua preferência nas últimas eleições, ela respondeu: "O Hadrad (sic)? Como é mesmo o nome dele? Pode ser que fizesse alguma coisa... Mas o Celso falou primeiro".

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