Sabujices

É direito de quem, querendo preservar ou ampliar o patrimônio, entrega as economias (suadas ou não...) a uma instituição financeira dela poder saber como esse investimento será feito, as garantias do capital investido e os rendimentos esperáveis. Ao assim leal e transparentemente informar, e por isso fornecer o aconselhamento ditado pelo cenário econômico, a casa bancária ou a corretora cumprem elementar obrigação imposta pelas leis e generosamente remunerada.

Manuel Alceu Affonso Ferreira, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2014 | 02h05

Pois bem, como sabido, faz pouco um importante banco demitiu o funcionário que, no extrato mensal enviado a alguns clientes, e então examinando a campanha eleitoral em pleno curso, afirmou que, "se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam alta e o índice da Bovespa cairia, revertendo parte das altas recentes".

Essa simples opinião - insisto, esse reles cumprimento do dever legal - foi o que bastou para, no ridículo fenômeno que acompanhamos, sacudir os alicerces da República, gerando iradas reações das mais altas autoridades, inclusive da própria presidente Dilma Rousseff.

A direção da sociedade bancária apressou-se a apresentar um mea culpa, humildemente pedindo desculpas pelo parecer do preposto e, com igual celeridade, anunciando o seu afastamento.

Ora, no citado episódio, aquilo que mais causa estranheza certamente não é o furioso revide dos administradores públicos. Compreende-se, sem justificar, que centrados nas próximas eleições e nas atuais condições da economia nacional, na inflação crescente e na galopante carestia, a candidata à reeleição e seus adeptos queiram afastar de si o cálice da impopularidade, herculeanamente tentando fazer acreditar, a consumidores e poupadores, que a quadra econômica é rósea e, polianamente, tudo corre bem.

O que, isso, sim, provocou a mais indignada perplexidade naqueles que acreditam na economia de mercado e na livre-iniciativa foi a atitude dos que, ajoelhados e penitentes, rogaram um contrito perdão à presidente da República e, para agravar, demitiram o analista que atendeu, com fidelidade e consciência, ao quanto se comprometeu quando contratado para a função. Não conheço esse profissional, mas consigo avaliar a intensidade da sua dor moral e do sofrimento diante da injustiça sofrida.

É a velha história: novamente, a corda rompeu-se na parte fraca...

Os sabujos são cães de caça. Farejadores por excelência, entre eles se acham o "beagle" e o "bloodhound". Há até mesmo um sabujo hispânico ("sabueso español"), que, de porte médio e lembrando os mastifes, foi levado para a Península Ibérica pelos celtas. Porque, à procura das presas, o sabujo abaixa a cabeça, assim permanecendo até localizá-las, "sabujice" traduz bajulação, o fazer rapapés, endereçar louvaminhas e espargir salamaleques. Em duas palavras, queimar incensos.

Digno teria sido que, caso sinceramente convencido do desacerto do analista, o banco emitisse nota pública retificativa, desautorizando-o e detalhando os erros da análise empreendida. Essa sensata providência - embora na contramão daquilo que, muito antes do injustiçado crítico, vários pareceristas e consultorias sustentavam - provavelmente satisfaria a iracúndia governamental e aplacaria a execração partidária.

Optou-se, todavia, pelo capachismo, não se hesitando em impetrar absolvições e, visando a torná-las mais audíveis nos gabinetes de Brasília, excluindo-se o empregado cuja única falta foi a de exprimir um juízo nascido da sua habilitação profissional.

Desse ronceiro servilismo se originam perversos efeitos. Doravante, de que liberdade opinativa gozarão e a exercitarão os técnicos que, na área financeira, são incumbidos de semelhantes diagnósticos? Não temerão eles, a partir do lastimável precedente, represálias idênticas?

E qual grau de confiança poderão merecer, dos investidores-destinatários, as avaliações recebidas das instituições guardiãs dos seus dinheiros? Tais apreciações se lastrearão num crivo independente ou, ao contrário, tão só circularão para agradar aos poderosos da República, sempre aplaudindo ou silenciando?

E como será possível perscrutar as eventuais mutações na firmeza e na rentabilidade das aplicações monetárias sem aí considerar as interferências do panorama político, por conseguinte, da perspectiva sucessória?

Neste sombrio planeta de Ucrânias e Faixas de Gaza, de muitos aterrorizantes pavores e de algumas acalentadas esperanças, de a cada dia mais achavascadas abelhudices do Estado no cotidiano e na intimidade dos cidadãos, como supor que na pesquisa do economato se possam lançar às urtigas, como algo de nenhuma influência, os processos, democráticos ou não, voltados para a substituição dos dirigentes públicos?

Afinal, recusar a investigação da mecânica sucessória e dos seus óbvios reflexos na economia é praticar uma inaceitável "não análise", pelo que preferível seria que, amordaçados, os analistas simplesmente deixassem de existir e, para sobreviver, passassem a vender guloseimas e quitutes, brincos e colares, quiçá alugassem bicicletas...

Concluindo, sabujices como as aqui descritas não são apenas cruéis. Acima de tudo são também perniciosas, e deletérias na medida em que reforçam a insegurança jurídico-econômica, periclitam a confiança coletiva, incentivam autoritarismos, egocentrismos, histerias e não me toques, nada disso bastasse pondo em risco - grave e iminente risco - a sempre desejável respeitabilidade das empresas privadas.

Manuel Alceu Affonso Ferreira é advogado

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