Sal da terra

Após dois voos longos e uma conexão apertada, estou novamente em terra firme e escuto alguém chamar meu nome ainda dentro do avião. Acompanho o oficial. Na sala do aeroporto, outro se aproxima e pede meu passaporte. São US$ 140 para o visa. O senhor aceita cartão de crédito? Não. Tem caixa eletrônica onde eu possa sacar o dinheiro? Escuto a risada do americano recostado num sofá vermelho e o comentário: "Elas não funcionam em Tashkent".

Eliana Cardoso,

23 Maio 2012 | 03h08

Entrego os US$ 140 ao oficial e ele volta uma hora depois com o passaporte carimbado. Sento-me para esperar o motorista. Vejo a cabeça redonda e raspada do homem gordo, de jaqueta e calça plastificadas, todo de branco. O noivo marciano é meu futuro motorista. A mala não chegou e ele vai me levar ao hotel. São 2 horas da manhã. Tomo uma ducha e me deito. Terra firme? A cama treme e o quadro na parede balança. Muitos anos atrás, em Tóquio, a mesma experiência me levou à recepção, onde me disseram que voltasse para o quarto: um terremoto leve... Desta vez, estou cansada demais para me levantar e fazer perguntas. Confio que também este seja leve e já tenha passado. Relaxo debaixo das cobertas macias e adormeço.

Vim ao Usbequistão, a pedido do Banco Mundial, para satisfazer a ministra da Economia, que quer saber como o Brasil ficou rico. A ditadura usbeque tem má fama, mas o banco me convenceu que conversar não dói...

Tashkent, a capital do país, mistura amplas avenidas e uma abundância de espaços verdes. Dizem que, nos bairros aos quais não tenho acesso, ainda existem labirintos de casas de barro, onde homens velhos vestem casacos estofados, empurram carrinhos de nozes e se reúnem em volta de caldeirões fumegantes, para a refeição diária de plov - mistura de carne, arroz, cenoura, cebola e alho.

Visito Samarcanda e Bukhara, berços de cultura milenar, e me encanto com madrassas espetaculares, belas mesquitas, fortalezas antigas, bazares e artesanato.

Procuro me informar sobre o desastre ambiental do Mar Aral, que já foi um dos quatro maiores lagos do mundo e hoje tem 40% do seu tamanho original. A antiga União Soviética desviou os rios que o alimentavam para diferentes projetos, inclusive para irrigação das plantações de algodão. A pesca, outrora próspera, desapareceu e o recuo do mar provocou verões cada vez mais quentes e mais secos e invernos cada vez mais frios. Restaram enormes planícies cobertas com sal, que o vento espalha. No Sermão da Montanha, Jesus chamou os seus discípulos de sal da terra. Não previu que, na terra maltratada pelo homem, até o sal, que dá sabor à vida, se transformaria em desastre para o meio ambiente.

A ministra da Economia empurra a responsabilidade para a velha União Soviética. Destaca que seu governo tem reduzido as plantações de algodão, ao mesmo tempo que investe na educação rural e na infraestrutura, para impedir a perda dos parcos recursos aquáticos. Mas a catástrofe é irreversível.

Penso na evidência acumulada no mundo inteiro sobre os desastres ambientais e no aquecimento climático. Entretanto, o Wall Street Journal (27/1) publicou artigo assinado por 16 cientistas intitulado Você não precisa entrar em pânico sobre o aquecimento global.

O professor da Universidade Yale William Nordhaus rebate cada um dos argumentos desse artigo, cuja primeira alegação é a de que não há aquecimento do planeta. Tirar conclusões sobre as tendências de temperatura é complicado, porque séries históricas de temperatura mostram grande volatilidade, comparável à dos preços de ações nas bolsas. Uma década de observações sobre o comportamento da bolsa, ou sobre o da temperatura, não representa a tendência de longo prazo. A constatação do aquecimento global entre 1880 e 2011 é uma das conclusões mais robustas da ciência do clima.

Da mesma forma que ações humanas secaram o Mar Aral e vêm destruindo as florestas brasileiras, elas também contribuem para o aquecimento. As projeções dos modelos climáticos são consistentes com as tendências de temperatura registrada nas últimas décadas somente quando incluem os impactos do comportamento humano.

O artigo argumenta ainda que o alarmismo beneficia cientistas (que recebem financiamento público para pesquisa acadêmica) e permite ao governo ações maléficas, como aumentar subsídios para as empresas (que entendem como funciona o sistema político), fazer doações para fundações de caridade (que prometem salvar o planeta) e subir os impostos sobre a gasolina (que recaem sobre os consumidores). De fato, esse argumento procura desviar a atenção do problema verdadeiro. Existem empresas e indústrias preocupadas com prejuízos, que seus interesses econômicos sofreriam, se os governos adotassem políticas destinadas a reduzir a mudança climática.

Os ataques contra a ciência do aquecimento global lembram a resistência das empresas de cigarro às descobertas científicas que apontaram os perigos do tabagismo. Os interesses em distorcer a ciência do clima superam em muito os da indústria do tabaco. Vendas de cigarros nos Estados Unidos somam hoje cerca de US $ 100 bilhões, enquanto as despesas com bens e serviços energéticos se aproximam dos US$ 1.000 bilhões.

Nordhaus mostra que existem benefícios substanciais em agir imediatamente. Estudos econômicos sugerem que a política mais eficiente se resume à elevação do custo das emissões de CO2 por meio de impostos, para que empresas e famílias se movam para atividades com emissões menores de gás carbônico.

O Brasil - ao conter o aumento do preço do petróleo, cortar impostos sobre gasolina e incentivar a venda de automóveis - vai na contramão das políticas a favor do meio ambiente. Sob esse ângulo, não servimos de exemplo para a ministra da Economia do Usbequistão.

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA TITULAR DA FGV-SÃO PAULO, SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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