Salários e crescimento

Com aumentos salariais acima da inflação, o consumo cresceu em 2013 pelo décimo ano consecutivo, impulsionado também pela expansão do crédito. Mas a margem de folga no orçamento familiar ficou mais estreita que no ano anterior e poderá ficar ainda mais apertada, neste ano, se a política anti-inflacionária for afrouxada antes da hora. No ano passado, 86,9% dos reajustes foram superiores à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), segundo informou na quarta-feira o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O ganho real médio nessas negociações ficou em 1,25%. Em 2012, o melhor ano para as negociações, na série pesquisada, houve aumento real em 95,1% dos reajustes, com elevação média de 1,98%.

O Estado de S.Paulo

05 Abril 2014 | 02h09

Os ganhos salariais para um grande número de categorias parecem combinar perfeitamente com o elevado nível de emprego observado nos últimos anos, apesar do crescimento econômico medíocre. O emprego e a expansão do consumo têm sido componentes importantes da retórica oficial, especialmente porque permitem uma comparação vantajosa com outras economias do Grupo dos 20 (G-20).

O desemprego permanece muito elevado na maior parte dos países desenvolvidos. Só nos Estados Unidos o quadro tem melhorado sensivelmente. Isso tem permitido uma redução gradual dos estímulos monetários à economia americana. Mas a situação do emprego no Brasil, embora melhor que a dos países mais avançados, fica menos entusiasmante quando examinada mais de perto.

Para começar, os dados mais positivos: os trabalhadores do comércio foram os mais amplamente beneficiados com aumentos reais de salários, conquistados em 98% das negociações. O ganho médio ficou em 1,42%, abaixo do obtido no ano anterior (1,91%). O consumo pode ter fraquejado, mas ainda cresceu e isso ajuda a entender a elevação salarial no setor.

As negociações no setor de serviços proporcionaram a menor parcela de ganhos reais - 77,9% do total. O aumento real ficou em 1% e as várias categorias profissionais incluídas nesse conjunto obtiveram resultados muito diferentes. Os bancários e securitários foram os mais bem-sucedidos, com 100% de negociações com reajustes acima da inflação.

O caso mais estranho, à primeira vista, é o do setor industrial. Ganhos reais foram obtidos em 88,9% das negociações. Foi uma parcela bem menor que a do ano anterior (96,2%), mas o resultado, com aumento real médio de 1,34%, parece bastante favorável, quando se considera o baixo crescimento da produção nos últimos anos. O valor adicionado da indústria aumentou apenas 1,3% em 2013, depois de haver encolhido 0,8% no ano anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Além disso, o pessoal ocupado diminuiu 1,4% em 2012 e 1,1% em 2013, embora as empresas tenham procurado evitar ou pelo menos adiar as demissões.

Os dois fatos - o esforço para manter os quadros e os aumentos reais em 88,9% das negociações - são facilmente explicáveis quando se consideram algumas características do mercado de mão de obra industrial.

A escassez de pessoal qualificado é conhecida e foi apontada várias vezes, nos últimos anos, em pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). É perfeitamente compreensível, diante desse fato, a valorização da mão de obra disponível. O quadro fica ainda mais claro quando se levam em conta os custos de demitir. A boa situação do emprego, decantada pelo governo, é em parte explicável por uma deficiência - a baixa oferta de trabalhadores qualificados ou qualificáveis no local de trabalho.

Não é difícil de entender os problemas de produtividade e de competitividade da indústria, quando se examinam a qualidade da educação e o evidente desinteresse do governo, durante muitos anos, em promover a formação de mão de obra. O governo federal só há pouco tempo começou a dar importância ao ensino técnico. Mas falta maior cuidado com a escola fundamental e com o ensino médio, em situação desastrosa.

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