São Paulo, as eleições, a política e a cidade

A hora exige a superação do que há de demagogia, de excessos, corrupção...

*Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2016 | 03h05

O cardápio de candidaturas é ruim. A forte crise política, a baixa qualidade da representação, os partidos esfarelados, eles mesmos vítimas de uma cena geral de demolição. O debate flui com dificuldade, há pouca reflexão técnica incorporada, faltam centros de coordenação. Uns diante dos outros, os postulantes nada dizem de importante.

Esquerda tradicional dividida, com dois candidatos pouco competitivos, um por ter de carregar o desgaste de seu partido e o ônus de uma gestão controvertida e outro por não ter uma agenda realista para a cidade. Marta Suplicy aproxima-se desse bloco como parte de um progressismo atípico, inorgânico; tenta resgatar o PMDB histórico e sua própria passagem pela Prefeitura dez anos atrás, explorando o bom trânsito que tem em regiões periféricas da cidade. Mas parece faltar-lhe oxigênio para vencer.

O polo conservador tem seu ponto mais ostensivo na candidatura de Russomanno, um populista que flutua na onda de “defensor dos fracos”. Major Olímpio, mais reacionário, é figura decorativa. Dória corre por fora, vocalizando um conservadorismo adocicado, nominalmente ligado a um partido com densidade na cidade, mas que se deixou amarrar ao governador Alckmin, perdendo coesão e autonomia. O candidato deseja fixar uma imagem de empresário que “sempre trabalhou” e “é administrador, não político”. Um retrocesso preocupante, numa bagagem já pesada.

Escolhas eleitorais sempre deveriam considerar a correlação de forças, as disputas partidárias, as necessidades reais da comunidade em questão e as possibilidades efetivas de gestão. Se a política vai mal, os partidos estão enfraquecidos e sem identidade, se coligações espúrias ocultam o que eles realmente são, o eleitor tende a escapar da racionalidade política e se deixa atrair por propostas bombásticas, promessas vãs e líderes providenciais, que se apresentam como heróis salvadores que trazem soluções no bolso, prontas para ser adotadas.

No contexto atual, candidatos, eleitores e governantes precisam aprender a se concentrar no fundamental. São tantos os problemas, tantas as dificuldades que qualquer tentativa de superpor uma agenda maximalista, carregada de projetos mirabolantes ou apelos ideológicos, a uma agenda realista básica nada trará de positivo para o cotidiano já complicado dos cidadãos, especialmente em locais como São Paulo. O município precisa de novos eixos de organização dos espaços, dos tempos e das formas de consciência urbana, que ajudem os cidadãos a se reencontrar com a cidade, a abraçá-la como coisa sua.

A montagem e a estabilização desses eixos demandam tempo, unificação de esforços, foco, fixação de prioridades, acúmulo de forças e muito debate público democrático. Não se trata somente de “programa de governo” ou de “propostas de gestão”.

Ainda que tenha representatividade e deva ser considerado postulante digno e legítimo, o polo conservador oferece pouco para a cidade: não tem generosidade para “empoderar” os cidadãos, vê-se como um vetor superior à comunidade, defensor do fortalecimento unilateral da instância administrativa, convertida em saída “racional”. A política, para esse polo, não é uma solução, mas um estorvo a ser tolerado e subordinado ao Executivo. Ele deseja surfar na rejeição dos cidadãos à política.

Ao polo conservador deveria contrapor-se um polo progressista forte. Se conseguisse unificar-se, ofereceria uma alternativa consistente para a cidade. Boa parte do dilema inscrito nas eleições atuais deriva do fato de que esse polo não conseguiu estruturar-se. Continua ausente. A dinâmica da crise política nacional, as polarizações artificiais, a complexidade da vida contemporânea, a diluição paralisante dos partidos e a falta de lideranças impediram que passos virtuosos fossem dados nessa direção.

Mas a tensão entre progresso e conservação, em suas múltiplas dimensões, reproduziu-se, mesmo que de forma imperfeita. Os eleitores de São Paulo não estão numa noite em que todos os gatos são pardos, nem comendo farinha do mesmo saco. Há detalhes importantes que fazem a diferença. É preciso olhar para ver, considerando o que é factível e melhor para a cidade. Prestar atenção não só nos candidatos a prefeito, mas naqueles que se candidatam à Câmara Municipal, que é por onde pode avançar a governança democrática.

Um polo progressista – de esquerda democrática em sentido amplo – pode frutificar em torno de candidaturas que dialoguem com todos, sem exclusões, não interponham uma plataforma ideológica à discussão dos problemas urbanos e se mostrem hábeis para organizar uma agenda democrática mínima, com fôlego para desenhar um futuro.

As atuais eleições não terão força para reorganizar a política municipal em São Paulo e instituir uma “cidade futura” inclusiva e democrática. Não há por que criar ilusões a respeito. Na melhor das hipóteses, as urnas instalarão outra plataforma, que será tanto mais sólida quanto mais contiver de continuidade com as boas iniciativas das gestões anteriores, sem rupturas eleitoreiras, factoides gerenciais ou “vinganças” gratuitas. A hora exige a superação do que há de demagogia, de excessos, de corrupção e beligerância na luta política e na gestão pública.

Cidades são núcleos populacionais com história e cultura, que se fazem e se renovam ao longo de um tempo que não pode ser encapsulado. São corpos em movimento constante, agregados repletos de lutas, conflitos e contradições, sínteses de muitas determinações. Quanto mais puderem ser governadas democraticamente – ou seja, a partir de baixo, com todos, de modo transparente, segundo regras claras e critérios de justiça e igualdade –, mais chances terão de se converter num locus de convivência para seus habitantes.

Nós, que vivemos e votamos em São Paulo, teremos até o próximo 2 de outubro para refletir sobre isso.

*Professor titular de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais - Neai da Unesp

 

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