São Paulo no limite

A chuva que atingiu São Paulo na madrugada e início da manhã de segunda-feira não foi anormal, mas, mesmo assim, travou a cidade durante a maior parte do dia. Às 10 horas da manhã, o congestionamento chegou a 245 quilômetros nas vias monitoradas pela CET, pouco menos do que a lentidão recorde do ano, de 249 quilômetros, registrada em 23 de maio. Quase uma centena de semáforos deixou de funcionar e houve alagamentos em pelo menos 49 pontos da capital, que deixaram 25 bairros em estado de atenção. Todas as linhas do metrô funcionaram com velocidade reduzida, o que superlotou as estações, e o Aeroporto de Congonhas fechou suas pistas justamente no horário de pico da manhã do dia de maior movimento da semana.

O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2012 | 02h09

Foi um caos desproporcional à intensidade da chuva, que confirmou o despreparo de São Paulo para enfrentar o problema das enchentes. A capital já não suporta sequer uma chuva que, no seu período mais intenso, não chegou a 11 mm.

Isso é consequência da inexistência de um programa de drenagem desenvolvido segundo as orientações de um plano diretor estratégico e tocado em ritmo acelerado, sem descontinuidade. Em vez disso, nas últimas décadas, pacotes de obras antienchentes foram anunciados em série, em resposta às tragédias provocadas pelas chuvas de verão. Eram compostos milagrosos, que reuniam tudo o que os especialistas recomendavam e mais o que a população queria ouvir. Nenhum deles foi levado adiante.

Tivesse São Paulo ganho todas as obras de contenção (piscinões e galerias subterrâneas), os parques lineares, conjuntos habitacionais e serviços de paisagismo prometidos, os transtornos para a população na temporada de chuvas seriam bem menores. Tivessem os administradores públicos instalado serviços de drenagem eficientes, com capacidade de exercer real controle sobre áreas de desenvolvimento, exigindo contrapartidas de empreendimentos e obras públicas que impermeabilizem o solo, uma chuva sem maior importância como aquela não produziria tantos estragos.

São Paulo é uma cidade que, a cada dia, ganha novos polos de tráfego e sofre com os processos erosivos - movimentações de terra necessárias para a construção de novos empreendimentos - que comprometem bastante o desempenho das suas estruturas de drenagem. Mais do que combater as consequências desse processo, investindo bilhões em obras de desassoreamento, é preciso tomar medidas como a exigência de compensações capazes de reduzir os danos causados à população.

O impacto econômico de uma segunda-feira de paralisação da maior cidade da América Latina é incalculável. Milhões de pessoas perderam horas paradas no trânsito. A produtividade das empresas, assim como o movimento do comércio, o transporte de cargas, a realização de eventos e a rotina escolar sofrem fortes impactos negativos. Produz-se menos a um custo ainda maior na já caríssima cidade de São Paulo. Sofre a capital e sofre toda região metropolitana, com prejuízos para boa parte da economia brasileira.

A área de 5,9 mil quilômetros quadrados da região metropolitana, que reúne 39 municípios e apresenta as maiores taxas de desenvolvimento e de riqueza do País, há muito já deveria estar preparada para se proteger melhor das inundações.

É necessário, por exemplo, combinar os antigos e polêmicos piscinões com novas soluções de engenharia hidráulica, para aumentar a eficácia dessas imensas obras feitas nas últimas décadas. A isso, poderiam ainda se somar novos arranjos institucionais e legais, para atualizar as normas de uso e ocupação de solo e criar sistemas de alerta.

A Grande São Paulo precisa mais do que promessas que se renovam a cada verão e se perdem quando as chuvas se vão. Precisa de um esforço conjunto das prefeituras da região metropolitana, do governo do Estado e também da União - tendo em vista a sua importância para o País - para torná-las realidade o quanto antes.

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