Se a palavra condena, a imagem consagra

Dizem que a fotografia abre canais para a emoção na página de um jornal, e isso é bom. Enquanto as letras do alfabeto, perfiladas como soldadinhos de chumbo, compõem colunas visualmente monótonas, as imagens reacendem a sensação de contato direto com o mundo real. As palavras enfileiradas procuram ordenar o caos da realidade, encadeando nexos lógicos entre eventos aparentemente soltos no espaço. As figuras operam em outro plano: elas anestesiam a lógica formal e, em lugar da racionalidade, apelam para a sensibilidade do leitor.

Eugênio Bucci*, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2013 | 02h11

Na primeira página de um diário, a manchete, os títulos e os subtítulos conferem certa hierarquia a fenômenos dispersos. As palavras tecem sentidos comuns entre acontecimentos desconectados uns dos outros. A diagramação das notícias mostra que este fato, que mereceu mais espaço, é mais urgente do que o outro; dizem que aquele deslize daquele político não pode ser ignorado; avisam que algo de grave se anuncia no horizonte (pode ser a chuva prevista para o fim de semana, podem ser as consequências sombrias da renúncia do secretário atingido por denúncias de corrupção).

Na mesma primeira página, a foto cumpre uma função bem diferente. Ela escancara a cena, que fala por si (ninguém precisa saber ler uma única palavra para sentir nos olhos o que a imagem expõe). A foto impõe uma pausa, um breve instante de atenção, um momento que pode ser de incredulidade, de simples contemplação, de nojo, ódio, piedade, desejo ou de desprezo. Onde a palavra privilegia o cálculo a imagem desata o sentimento e dessa polarização o jornalismo - não só no papel, mas em toda parte, principalmente na televisão e na internet - extrai o seu melhor sabor.

É por aí também que ele mergulha na sua esquizofrenia. Sim, o pêndulo entre imagem e palavra tende para o bem, mas, ao mesmo tempo, abre contradições que, para boa parte dos profissionais da imprensa, são simplesmente insolúveis. Um eloquente exemplo dessa esquizofrenia nós tivemos agora, de poucos meses para cá. De um lado, todos os editoriais de todos os veículos de comunicação do País registraram críticas mais ou menos agudas à agressividade violenta dos black blocs. Na outra ponta, as fotografias e as imagens de TV endeusavam a persona do black bloc, com suas máscaras de lã, suas botinas de pedra e suas garrafas flamejantes. Graças ao tratamento fotográfico que recebeu, essa persona foi investida de uma aura artificial de romantismo incendiário, de paixão, de coragem adolescente. Enquanto as palavras tentavam ser severas com os tais "vândalos" (entre aspas, pois a polícia também enveredou pelo vandalismo e, apesar disso, nunca mereceu esse adjetivo das coberturas dominantes), as fotografias produziam deles uma iconografia heroica e fetichista.

Que ninguém se surpreenda se algum costureiro lançar uma nova grife, "Vandaluz", ou se nos shows de rock da próxima temporada o guitarrista quebrar seu instrumento contra uma vidraça artificial em cima do palco, imitando uma agência bancária. O papa é pop e o black bloc é chique.

No seu automatismo de não perder um lance dos confrontos, os veículos informativos fabricaram a mística desse novo ícone de valentia juvenil, que faz lembrar a Jovem Guarda ("eu sou rebelde porque o mundo quis assim, porque nunca me trataram com amor", etc). É evidente que a imprensa tem o dever de registrar o confronto, mas será que ela tem também o dever de endeusar os protagonistas dos quebra-quebras para dar mais tempero aos desajustes do cotidiano?

As cenas que os editorialistas mais recriminam são justamente aquelas que os editores de fotografia mais adoram. Com isso se vai instalando dentro das redações a mesma clivagem que sempre caracterizou o comportamento dos telespectadores. Do alto de seu moralismo declarado, os telespectadores vituperam contra as programações mais apelativas. Depois, no esconderijo de seu quarto, entre quatro paredes, entregam-se à contemplação das baixarias que dizem repelir. Os programas que mais provocam protestos são normalmente os que mais atraem audiência. Não se trata de hipocrisia: a massa de telespectadores é esquizofrênica, como sempre se soube. O dado intrigante é que as redações também estejam ficando assim.

Na virada do século 19 para o século 20, a visibilidade tornou-se o critério definitivo da existência. Só o que visível, histericamente visível, parece existir de verdade. Tanto as massas como as pessoas, tanto as multidões como cada um dos indivíduos, dão a vida em troca de um minuto de visibilidade. Isso é literal. Meninos que fuzilam seus colegas de escola e depois disparam um tiro na própria cabeça desejam apenas que os meios de comunicação digam o nome deles, mostrem a foto deles. O crime de sangue, desde que bárbaro, horripilantemente bárbaro, é um atalho mórbido para a celebridade. Quem garante é a imprensa. Pelos mesmos mecanismos, a melhor forma de sair por aí fazendo pose de bonitão (ou bonitona) para a galera é se fantasiar de black bloc e ir "causar" na passeata. Ser black bloc, além de chique, é sexy.

Que alguém apareça vestido de Batman na manifestação de rua não surpreende: a mística do black bloc é herdeira de Durango Kid, Homem Aranha, Zorro e outros heróis dos quadrinhos. De acordo com a representação que os meios de comunicação fizeram dela, a mística do black bloc é uma categoria não do jornalismo, mas do entretenimento. É mesmo possível que, ao atirar uma pedra contra o escudo da Tropa de Choque, o garoto, com overdose de adrenalina, tenha de si mesmo a imagem de um, digamos, Batman de esquerda. Pode soar patético, mas o imaginário fabricado pela cobertura fotográfica dos protestos que eclodiram em junho passa por aí.

Nas ruas e nas redações, a emoção (das imagens) e a razão (da palavra) olham uma para a face da outra e não se reconhecem mais.

*Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM.

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