Segunda natureza

Boa notícia: animais silvestres, pássaros incluídos, estão reaparecendo por aí afora. Nestes tempos de crise ambiental, alegra a alma saber que a vida selvagem consegue se acomodar no mundo humano. Mostra que nem tudo está perdido.

Xico Graziano, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2011 | 00h00

Aos mais atentos surpreende verificar papagaios voando e fazendo algazarras na capital paulista. Sem sotaque interiorano. O verde de sua plumagem garante que os psitacídeos, incluindo os barulhentos periquitos, encontram alimento, e locais de reprodução, entre o asfalto da metrópole. No interior, maritaca começa a virar praga, danificando a fiação nos telhados domésticos.

O Centro de Estudos Ornitológicos indica existirem 462 espécies de aves habitando a selva paulistana de concreto. Ao contrário do que se imaginava, passarinhos nativos de todos os tipos, como rolinhas, sabiás, sanhaços, bentevis, sebinhos - também conhecidos pelo feio nome de "caga-sebo" -, trocam de vida e adotam a cidade, nidificando nas árvores das praças e nas frestas dos edifícios como se estivessem no mato que abrigou seus antepassados. Enxotam os exóticos, e chatos, pardais e se firmam na paisagem urbana. É fantástico.

Observadores de pássaros se encantam. E já perceberam o outro lado da moeda: pressentindo comida fácil, surgem os terríveis predadores. Gaviões carcarás, aqueles grandes, passaram a dominar certos edifícios de onde, qual no topo da montanha, capturam suas presas com voos certeiros no final da tarde. Aula de ecologia ao vivo nos céus poluídos da capital!

Além dos pássaros, quem virou notícia, mesmo, foi a onça parda. O felino amarronzado acaba de virar símbolo da biodiversidade paulistana, em concurso realizado via internet pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Também conhecida como suçuarana, ela caiu nas graças dos internautas, que a elegeram, à frente de outros 14 bichos candidatos à láurea, superando o simpático bentevi e o famoso sabiá-laranjeira, cantores da natureza.

Ao contrário dos pássaros, porém, que repovoam há tempos a paisagem urbana, nenhuma onça parda foi vista ainda andando pelas praças da cidade de São Paulo. Mas lá no interior, cuidado, pois crescentemente ela tem sido percebida nos capões de mato, nas pradarias ou entre laranjais e canaviais próximos de remanescentes de vegetação nativa, especialmente nas encostas de serra. Toca garantida.

Antigamente, a suçuarana desdobrava-se para abocanhar quatis, pacas, catetos, tatus, filhotes de capivara, entre outras guloseimas preferidas, fazendo funcionar a cadeia produtiva. Mas agora, na modernidade da agricultura entremeada com a preservação ambiental, ficou moleza se alimentar. Volta e meia, lá se vai uma galinha caipira ou um manso bezerro recém-nascido, virando comida, nas garras inusitadas que ressurgem. Azar do sitiante, sorte do meio ambiente.

Presente em todos os biomas brasileiros, dos mais quentes aos mais frios, a grande vantagem da onça parda reside em sua capacidade de adaptação aos diferentes ecossistemas e ambientes. Por isso é encontrada desde os pampas gaúchos até a caatinga nordestina. Fenômeno semelhante de ambientação ocorre com as aves, há tempo descrito por Dalgas Frisch, ornitólogo e escritor que primeiro estudou e divulgou o retorno dos pássaros a São Paulo.

É sabido que a devastação da natureza causa muitas tragédias, ameaçando de extinção os animais silvestres. Duas são as razões básicas: primeiro, a influência deletéria dos agentes contaminantes trazidos pela poluição, incluindo os agrotóxicos; segundo, a notória supressão dos hábitats naturais, que representam a moradia, e o almoço, da bicharada. O resultado aparece na lista dos animais ameaçados de extinção no Estado de São Paulo, que contém 436 espécies e subespécies, cerca de 17% do total de vertebrados conhecidos por aqui.

Atualizada em 2008, a listagem - elaborada sob a coordenação da Fundação Parque Zoológico de São Paulo - trazia uma boa menção que, entretanto, permaneceu obscura na mídia. Tratava-se da preservação do mico-leão-preto, espécie de macaquinho existente apenas nos remanescentes paulistas da floresta atlântica entranhada lá no oeste, próximo do Rio Paraná. O encantador símio deixou de estar "criticamente em perigo" e, graças aos esforços de conservação, melhorou sua condição de sobrevivência para a categoria "em perigo". Quem quiser pode conferir lá no Parque Estadual Morro do Diabo, que, a despeito do nome feio, parece uma dádiva divina.

Outro dia, aguardando o embarque na balsa que leva à Ilhabela, fui saudado por um canário da terra, bem amarelinho, que, pousado na fiação elétrica, trinava alto seu canto. Desde minha meninice, vivenciada na Fazenda Santa Clementina, em Araras, eu me apaixono pelos passarinhos, com quem busco conversar em minha intimidade. Com eles primeiro aprendi que a natureza precisa e gosta de ser ajudada.

Muitas ações conservacionistas, bem executadas, reconstroem uma espécie de "segunda natureza", que, embora modificada, conduz a razoável harmonia entre a civilização e o meio ambiente. Os pássaros atestam isso. Pena que algumas espécies, mais delicadas, a exemplo do pintassilgo ou do curió, não sobrevivam nos jardins da Paulistânia. Que pena.

Manter espaços com florestas nativas ajuda a entender nossa origem. Soa impensável, porém, ao ser humano viver como no tempo das cavernas. Por outro lado, é insano imaginar que a supremacia, para não dizer arrogância, humana leve ao aniquilamento da biodiversidade. Há caminhos de convivência mútua.

Preste atenção ao canto dos pássaros. Misturados ao barulho urbano, eles rogam por simples gestos de generosidade. Quando, infelizmente, não disfarçam a sua tristeza aprisionados numa gaiola.

AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: XICOGRAZIANO@TERRA.COM.BR

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