Segurança medida em dólares

O maior fator de tranquilidade da economia é a boa evolução das contas externas

O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2018 | 03h00

O maior fator de tranquilidade da economia brasileira continua a ser a boa evolução das contas externas, ainda sólidas num cenário de muita incerteza política. Com US$ 379,58 bilhões de reservas em março, superávit comercial de US$ 13 bilhões no primeiro trimestre e pequeno déficit em conta corrente, o Brasil tem condições de enfrentar um cenário internacional mais instável, pelo menos enquanto houver algum sinal de lucidez na política nacional. O País conseguiu atravessar fases difíceis, nos últimos dez anos, sem cair em crise cambial. Superou sem grandes traumas a recessão iniciada com o estouro da bolha financeira no mundo rico. Em seguida, sofreu a crise interna de 2015-2016 e novamente o balanço de pagamentos aguentou o teste, apesar da piora sensível no saldo das transações correntes. Os números continuam tranquilizantes, mesmo com alguma volatilidade financeira, muita especulação sobre o ritmo de alta de juros nos Estados Unidos e ampla insegurança quanto à evolução e ao resultado da campanha eleitoral.

O robusto superávit no comércio de mercadorias continua sendo o principal sustentáculo de um bom resultado em transações correntes. A diferença entre exportações e importações de bens ficou em US$ 5,97 bilhões em março e US$ 13 bilhões no primeiro trimestre. O valor de US$ 54,26 bilhões exportado entre janeiro e março foi 7,79% maior que o de um ano antes, mas o superávit diminuiu porque o valor importado cresceu 12,95%.

O aumento de importações é um efeito previsível e saudável da recuperação do consumo, da produção e também do investimento produtivo. A segurança depende, nesse quadro, de um crescimento de exportações suficiente para manter um razoável saldo positivo. Isso está ocorrendo e prevê-se a manutenção da tendência.

Conta comercial no azul é especialmente importante, no Brasil, por causa da tradicional tendência deficitária das contas de serviços e de rendas. A soma desses itens compõe o conjunto das transações correntes, o principal resumo das trocas com o exterior.

No primeiro trimestre, o déficit da conta de serviços foi de US$ 8,11 bilhões, em boa parte por causa do aumento dos gastos com viagens e fretes. Na conta de renda primária, que inclui juros, lucros e royalties, o déficit bateu em US$ 8,68 bilhões. A movimentação da renda secundária foi positiva, com o pequeno excedente de US$ 565 milhões. Aí aparece, com destaque, o dinheiro remetido por trabalhadores no exterior.

O déficit de US$ 3,22 bilhões em transações correntes correspondeu a 0,64% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse déficit chegou a US$ 8,34 bilhões em 12 meses, equivalentes a 0,41% do PIB. O buraco foi coberto com enorme sobra pelo ingresso líquido de US$ 64,30 bilhões de investimento direto, dirigido ao setor empresarial. Apesar de alguma redução, esse investimento continua compensando com muita folga o déficit da conta corrente.

A situação é muito mais tranquila do que em 2014, quando o buraco chegou em 12 meses a US$ 104,18 bilhões e o investimento direto ficou em US$ 97,18 bilhões. A cobertura dependeu, portanto, embora em pequena parte, de capitais dirigidos a operações financeiras, mais voláteis e menos vinculados ao fortalecimento da economia.

Este tipo de capital, destinado a aplicações financeiras e mais especulativas, tem sido ainda mais volátil, segundo os dados do BC. Esse caráter poderá ainda acentuar-se, nos próximos meses, se aumentarem as apostas numa elevação mais veloz dos juros básicos americanos. Isso afetará os custos dos empréstimos obtidos no exterior e terá algum reflexo nas condições de financiamento das contas públicas brasileiras, ainda amplamente deficitárias.

A insegurança quanto às condições externas e à política brasileira tem também afetado o câmbio, encarecendo o dólar. A desvalorização do real em relação a outras moedas poderá gerar pressões inflacionárias, mas beneficiará o comércio, barateando exportações e encarecendo importações. Um cenário razoável, enfim, se nenhum prenúncio catastrófico aparecer na campanha eleitoral.

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