Seguridad triunfa na Colômbia

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia surpreendeu os observadores pela margem da vitória do candidato do governo, o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos. Desmentindo as pesquisas de opinião que lhe davam uma pequena vantagem sobre o seu principal adversário, o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus, do recém-fundado Partido Verde, Santos colheu nas urnas aproximadamente 47% dos 14,7 milhões de votos depositados (a abstenção foi da ordem de 50%). De seu lado, Mockus ? a estrela da campanha pelo seu estilo considerado "excêntrico" ? ficou pouco abaixo de 22%.

, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2010 | 00h00

O que não surpreendeu ninguém foi o endosso da esmagadora maioria do eleitorado aos candidatos favoráveis à política de seguridad democrática do presidente Álvaro Uribe, que em 8 anos resgatou a população do terrorismo das Farc, que chegaram a dominar 25% dos municípios do país, e desmobilizou 20 mil paramilitares de extrema direita. Santos foi o responsável pela execução do programa que confinou a narcoguerrilha e graças ao qual Uribe desfruta de índices lulistas de aprovação (74%). Ele sem dúvida seria reeleito pela segunda vez se a Justiça não tivesse vetado a sua pretensão.

Mockus também aprovou o combate sem concessões aos narcoguerrilheiros. Suas críticas ao uribismo são de outra natureza: corrupção, abuso de poder e violações de direitos humanos em escala que considera inconcebível numa democracia estável ? como, sem sombra de dúvida, a Colômbia merece ser considerada. A política de Uribe, sustentada pelos recursos e o apoio logístico dos EUA, no marco do Plano Colômbia, teve o aplauso de dois outros candidatos, que arrecadaram 16% dos sufrágios e decerto fecharão com Santos no segundo turno de 20 de junho. Festejando o seu triunfo, saudou em Uribe "o melhor presidente da história da Colômbia".

Apesar das denúncias que marcaram os seus dois mandatos, os colombianos acreditam que ele fez o que tinha de fazer com as Farc, ante a fracassada política conciliatória do governo Andrés Pastrana, que o precedeu. Quando Uribe assumiu, os infames sequestros da narcoguerrilha passavam de 2 mil ao ano. Hoje são 1/10 disso. "E os habitantes de Bogotá já podem caminhar pelas ruas relativamente tranquilos, sem medo da explosão de uma bomba na lata de lixo mais próxima", relata a enviada especial do Estado, Ruth Costas. "Comigo, a Colômbia poderá dormir tranquila", promete Santos, para dizer que será tão uribista como Uribe na prioridade para a segurança pública.

Membro de uma tradicional família da elite política de seu país, ele nunca antes havia disputado uma eleição. Mas foi ministro da Fazenda e do Comércio Exterior em governos anteriores. Algum crédito haverá de ter pela imaculada ficha colombiana em matéria de política econômica. O país mantém as finanças públicas nos trilhos e sempre quitou pontualmente os seus compromissos financeiros com os organismos internacionais ? o que é ainda mais espantoso quando se leva em conta, além dos padrões da vizinhança, que há mais de 40 anos a Colômbia vive em guerra interna de maior ou menor intensidade. Isso não mudaria num eventual governo Mockus.

Tanto ele como o rival que o derrotou, por exemplo, não veem a hora de a Colômbia concluir com os Estados Unidos um tratado de livre comércio nos moldes dos que já tem com a União Europeia, o Mercosul e diversos países. E, ainda mais se a eleição de Santos se consumar, a Colômbia continuará a ser um contrapeso ao chavismo e seus aliados bolivarianos. Em 2008, o então ministro da Defesa mandou atacar um acampamento das Farc em território equatoriano, desencadeando fortes reações do presidente Rafael Correa e do seu mentor Hugo Chávez. Este baixou o tom quando material apreendido no acampamento comprovou o apoio venezuelano aos terroristas.

As relações entre Bogotá e Caracas estão congeladas, o que atinge duramente a balança comercial colombiana. Durante a campanha, Santos e Chávez trocaram farpas antes de substituí-las por declarações apaziguadoras. Não está claro como os dois países tornarão a se aproximar.

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