Seguro contra choque externo

Contas externas em bom estado permitirão ao novo presidente - se tiver juízo - concentrar a atenção em ajustes e reformas indispensáveis

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2018 | 03h00

Resistência a choques externos - com reservas elevadas e saldo comercial ainda robusto - é um dos aspectos mais positivos da economia brasileira, neste momento, e uma herança preciosa para o próximo governo. Se for capaz de apreciar e manter esse ativo, o novo presidente poderá cuidar dos problemas internos, especialmente das finanças públicas, sem ser assombrado pelo fantasma da crise cambial. Não há segurança quanto a isso. Já se falou, na campanha eleitoral, sobre o uso de reservas cambiais para reduzir a dívida pública. Se ocorrer, será um erro duplo. Primeiro, o endividamento continuará elevado e voltará a crescer. Segundo, a blindagem contra choques será perigosamente enfraquecida.

Com reservas de US$ 381,39 bilhões em agosto, o Brasil pode enfrentar sem problemas os compromissos externos públicos e privados. No mês passado, a dívida bruta, incluída a de longo prazo, correspondia a US$ 298,57 bilhões. Ficavam fora da soma as operações intercompanhia e os títulos de renda fixa detidos por não residentes e liquidáveis no mercado interno em reais.

O País mantém reservas na faixa de US$ 370 bilhões a US$ 382 bilhões desde o ano passado. Volumes acima de US$ 350 bilhões são registrados há alguns anos. O esforço para preservar ativos consideráveis em moedas fortes tem sido parte de uma política de segurança defendida por diretores do Banco Central (BC).

Os fatos têm confirmado o acerto dessa estratégia, mas o volume de reservas é apenas um dos aspectos mais visíveis da blindagem contra choques externos. Além disso, esse volume depende de outros fatores, como o saldo em transações correntes e o ingresso de dólares por meio de investimentos diretos e de outros tipos de aplicação financeira.

O comércio de mercadorias, a conta de serviços (como fretes, viagens e seguros) e a de rendas (como entrada e saída de lucros e dividendos e de remessas unilaterais) compõem as transações correntes. No Brasil, a balança comercial é normalmente superavitária, exceto quando o governo comete erro - na gestão do câmbio, por exemplo. O superávit comercial compensa parcialmente o déficit nas demais contas desse conjunto e, quando tudo vai bem, o resultado é administrável e até benéfico ao País.

Quando o déficit em transações correntes é financiado com poupança externa, o Brasil dispõe de recursos adicionais para financiar o investimento em máquinas, equipamentos e obras. O resultado, quando tudo é conduzido corretamente, é um crescimento maior do que seria possível sem aquele recurso de fora.

Nos 12 meses até agosto, o déficit acumulado em conta corrente ficou em US$ 15,54 bilhões. Nesse período, o saldo do investimento direto estrangeiro (diferença entre ingressos e saídas) chegou a US$ 69,63 bilhões, mais que o quádruplo do necessário para cobrir aquele déficit. Detalhe muito importante, esse investimento direto é a melhor forma de financiamento estrangeiro, porque se destina à atividade empresarial. Portanto, é normalmente uma aplicação de longo prazo, sem risco de saída abrupta. É muito mais seguro que outros tipos de capital.

O déficit acumulado nos 12 meses até agosto correspondeu a apenas 0,80% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o investimento direto equivaleu a 3,61%. Valores menores que 1% do PIB ocorreram regularmente desde maio do ano passado e foram sempre cobertos muito facilmente. Isso foi importante fator de segurança durante a lenta recuperação econômica depois de dois anos de recessão.

Contas externas em bom estado permitiram atravessar fases de forte turbulência internacional. O Brasil sofreu, como outros países, duros impactos no câmbio, mas avançou, até agora, sem maiores danos. No caso brasileiro, a instabilidade cambial foi ainda amplificada pelas incertezas políticas. Contas externas em bom estado permitirão ao novo presidente - se tiver juízo - concentrar a atenção em ajustes e reformas indispensáveis. Se lhe faltar juízo, também as contas externas estarão em risco.

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