Sem fôlego para a corrida

O Brasil continua no último pelotão na corrida do crescimento global e aí continuará por vários anos, segundo o FMI

O Estado de S.Paulo

18 Julho 2018 | 03h00

O Brasil continua no último pelotão, na corrida do crescimento global, e aí continuará por vários anos, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). A economia global deve crescer 3,9% em 2018 e repetir esse desempenho em 2019, segundo as estimativas divulgadas nesta semana, num cenário de riscos agravados pelos conflitos comerciais dos Estados Unidos com a China e outros grandes parceiros. Mesmo assim, os países emergentes, novamente liderados por China e Índia, devem avançar 4,9% neste ano e 5,1% no seguinte. Nesse quadro, a estimativa dos economistas do Fundo para o Brasil é até otimista, se confrontada com as expectativas oficiais e com as do mercado. O governo federal já reduziu sua previsão para 1,6%, a mesma anunciada há mais de um mês pelo Banco Central (BC). No mercado, a mediana das projeções coletadas na pesquisa Focus caiu para 1,50% na última semana.

A nova previsão do Fundo para o País é de 0,5 ponto porcentual mais baixa que a divulgada em abril. Mas o crescimento estimado para este ano é o detalhe menos importante. Ainda em expansão, a economia brasileira continua sujeita a riscos importantes e com potencial de crescimento muito baixo.

Comentando a recente revisão anual das condições do Brasil, técnicos e dirigentes do FMI chamaram a atenção para as incertezas quanto ao programa de reformas. Com ênfase especial, apontaram a modernização da Previdência como “imperativa” para garantir a sustentabilidade do sistema, torná-lo mais equitativo e criar espaço para a arrumação das contas públicas. Apontaram de novo um dos maiores e mais importantes desafios – frear a perigosa expansão da dívida pública, já equivalente a 84% do Produto Interno Bruto (PIB) e avançando para 90%.

Calculadas pelos critérios do FMI, essas porcentagens são pouco maiores que aquelas indicadas nas contas oficiais brasileiras, mas, por qualquer dos dois padrões, a dívida é muito alta para um país de renda média e muito maior, proporcionalmente, que a dos outros grandes emergentes.

Economistas do Fundo voltaram a comentar as perspectivas brasileiras em outro documento, a atualização de julho do Panorama da Economia Mundial. Nesse relatório fica muito clara, mais uma vez, a enorme diferença entre o ritmo de expansão do Brasil e o da maior parte dos outros países – desenvolvidos, emergentes e em desenvolvimento. O México deve crescer 2,3% neste ano e 2,7% em 2019. A China, 6,6% e 6,4%. A Índia, 7,3% e 7,5%. Os países da África Subsaariana, 3,4% e 3,8%, em média. Os Estados Unidos, 2,9% e 2,7%. A zona do euro, 2,2% e 1,9%.

No relatório sobre a consulta anual, publicado uns dias antes do Panorama, as projeções do crescimento brasileiro chegam até 2021: 1,8% em 2018, 2,5% em 2019, 2,3% em 2020 e 2,2% nos anos seguintes. Os números próximos de 2% correspondem – um detalhe implícito – ao potencial estimado de crescimento, muito baixo enquanto permanecerem os entraves estruturais e os investimentos insuficientes (o máximo previsto, 19,5% do PIB em 2021, ainda será inferior aos padrões dos países emergentes).

No Panorama há referência às incertezas políticas no Brasil e ao efeito persistente de greves. Ao apresentar o documento numa entrevista coletiva, o economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld, foi mais explícito. Segundo ele, a paralisação dos caminhoneiros arrancou “um grande naco do PIB do trimestre”.

Além dos problemas internos, cada país terá de enfrentar pressões derivadas da alta dos juros nos Estados Unidos e os possíveis efeitos das tensões comerciais. Os mais afetados serão, naturalmente, os países com maiores desajustes internos e externos. O FMI tem repetido essa advertência. O custo da vulnerabilidade já foi comprovado pela Argentina, agora envolvida num programa de ajuste com recursos do Fundo, e por todos os países mais afetados pela turbulência cambial. Falta saber quantos candidatos à Presidência, no Brasil, terão entendido, ou mesmo notado, tantos claros e sensatos alertas.

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