Sem força para crescer

A maioria dos dados indica um sistema empresarial ainda retraído, com sinais muito raros da reativação observada em alguns segmentos

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 03h00

O Brasil está anêmico por falta de investimento em capacidade produtiva, isto é, em máquinas, equipamentos e construções, segundo o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), economista Paulo Rabello de Castro. Há bons fundamentos para essa avaliação. Os empresários têm pouco apetite para investir, porque a indústria tem ampla capacidade ociosa e, além disso, a recuperação dos negócios é lenta e a melhora nos próximos dois anos será modesta, segundo a maior parte das projeções. Só o avanço da agropecuária aparece refletido nos últimos números divulgados pelo banco. A maioria dos dados indica um sistema empresarial ainda retraído, com sinais muito raros da reativação observada em alguns segmentos. No primeiro semestre, foram desembolsados R$ 33,5 bilhões, 17% menos que um ano antes, em valores nominais. Em 2016, a soma ficou em R$ 88,3 bilhões. Neste ano, se o total chegar a R$ 65 bilhões, será muito, disse Rabello.

A pouca disposição de investir aparece já no valor das consultas, de R$ 48,1 bilhões no primeiro semestre, ou uma redução nominal de 15% em relação à primeira metade de 2016. Houve queda também nas aprovações e nas liberações de recursos. Só um grande setor, a agropecuária, recebeu mais dinheiro que um ano antes – R$ 6,9 bilhões, com 3% de aumento na comparação interanual. Houve recuo nos desembolsos para indústria (11%), para infraestrutura (40%) e para comércio e serviços (29%). Também houve recuo no total desembolsado em 12 meses (R$ 81,6 bilhões, diminuição de 24%). Nesse período a agropecuária foi o único setor beneficiado com desembolsos maiores (9%) que nos 12 meses imediatamente anteriores.

As grandes empresas continuaram com a maior parte do bolo, 60,4% dos desembolsos no primeiro semestre. Nos 12 meses até junho a participação havia sido maior, de 67,2%. Há, portanto, uma indicação de declínio, mas ainda faltam detalhes para confirmar, se for o caso, uma alteração na estratégia do banco. O apoio a grupos selecionados para se tornarem campeões nacionais, seguido no período petista, foi nitidamente renegado a partir do ano passado. Mas ainda se espera uma clara redefinição de prioridades e de critérios.

A troca da TJLP pela TLP, com redução de subsídios custeados pelo Tesouro, deve ser parte da mudança, mas isso reflete principalmente, por enquanto, uma revisão do vínculo entre política fiscal e política de financiamento. Em outros períodos foi muito mais identificável a função atribuída ao BNDES na política de expansão e de modernização da capacidade produtiva (itens como substituição de importações de bens de capital ou de apoio à produção de certos tipos de insumos, por exemplo).

Com muito atraso, o governo federal começa a dar atenção, pelo menos de modo explícito, a objetivos como a participação brasileira nas cadeias globais de produção. Políticas voltadas para esse objetivo devem contemplar, naturalmente, ganhos de produtividade e maior esforço de inovação.

Mas ainda falta estabelecer mais precisamente o escopo de ações de apoio a esforços inovadores. Quais serão os candidatos elegíveis para financiamento? A ajuda será reservada a grandes e, talvez, também médias empresas? Pequenos grupos com potencial de criação tecnológica serão, como nos Estados Unidos, beneficiados com créditos ou mesmo com capital de risco? Como se articularão, para esses e outros tipos de financiamento, o BNDES e instituições privadas?

O governo tem dado indicações genéricas de uma nova política de desenvolvimento. Tem procurado arrumar suas finanças e criar condições fiscais propícias à expansão dos negócios. Mas é preciso, agora, cuidar de estímulos diretos ao crescimento. A partida pode ser o investimento em infraestrutura. Isso pode romper o círculo de baixo crescimento, baixo investimento e novamente baixo crescimento. Com desemprego alto, o impulso dificilmente virá do consumo. Não basta remover entraves. É essencial dar um empurrão. Depois, o rumo e o ritmo dependerão da nova estratégia.

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