Sem margem para afrouxar

Retomada do crescimento ainda tem pela frente batalha a respeito da arrumação das contas públicas

O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2016 | 05h00

O Brasil continua fora do grande jogo da recuperação econômica. Enquanto outros governos discutem como firmar e dinamizar o crescimento, o brasileiro ainda batalha para implantar uma pauta de arrumação das contas públicas e, se possível, uma agenda de reformas. Na terça-feira passada, o Conselho de Estado da China prometeu maiores esforços, na política fiscal, para dinamizar a demanda doméstica. A estratégia deve incluir a aceleração de projetos de infraestrutura e, ao mesmo tempo, a concessão de maior espaço a investidores privados para atuar em áreas de educação e saúde. No mesmo dia, o banco central chinês injetou 275 bilhões de yuans, equivalentes a US$ 41,3 bilhões, no sistema financeiro, para crédito de médio prazo. Dois dias depois, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou a manutenção dos juros de refinanciamento na mínima histórica de zero por cento e prometeu manter o programa de relaxamento quantitativo até março de 2017, ou até depois, se isso for necessário. Nos Estados Unidos, os juros básicos permanecem na faixa de 0,25% a 0,50% ao ano e continuarão muito baixos por longo tempo, mesmo se houver algum aumento até o fim do ano.

Enquanto isso, no Brasil, o Banco Central mantém os juros básicos em 14,25% e condiciona o início de cortes tanto a sinais mais claros de recuo da inflação quanto ao firme encaminhamento das medidas de ajuste das contas públicas. Forçado a tratar esse ajuste como prioritário, o Executivo nem pode pensar em política orçamentária expansionista: se tudo correr segundo os planos, o balanço ainda será fechado no próximo ano com um déficit primário – sem os juros, portanto – de R$ 139 bilhões. Qualquer estímulo dependerá da participação privada em projetos de infraestrutura e da melhora de humor de empresários e investidores, se a política econômica tiver credibilidade suficiente.

Ao comentar a decisão sobre os juros e sobre a injeção mensal de 80 bilhões de euros por meio da compra de papéis no mercado, o presidente do BCE, Mario Draghi, apresentou também as novas projeções de crescimento na zona da união monetária: 1,7% neste ano, 1,6% no próximo e 1,6% em 2018. As previsões de junho eram muito parecidas: 1,6%, 1,7% e 1,7%. Não houve mudança suficiente para justificar alterações na política. Nos Estados Unidos, o Livro Bege, publicado regularmente pelo Federal Reserve, o banco central americano, registrou crescimento de 0,7% da produção industrial em julho, a maior taxa desde novembro de 2014. O emprego continua crescendo, mas a abertura de 151 mil vagas em agosto, abaixo das previsões do mercado, estimulou especulações sobre mais um adiamento da nova alta de juros.

Enquanto operadores financeiros classificam como decepcionante a criação de 151 mil vagas nos Estados Unidos, depois de vários meses com números próximos de 200 mil, o mercado de trabalho continua em deterioração no Brasil e sem perspectiva de reversão. 

Na Europa, analistas do mercado financeiro mostraram pouco ou nenhum entusiasmo diante da manutenção da política monetária frouxa pelo BCE. A estratégia de juros muito baixos e de estímulo ao crédito já bateu no limite, argumentam, e a economia só ganhará impulso com estímulos fiscais mais fortes e com maior avanço na agenda de reformas. Críticas semelhantes têm sido feitas por especialistas do Fundo Monetário Internacional e foram repetidas na recente reunião de cúpula do Grupo dos 20 (G-20), na China.

Essa discussão acentua o contraste entre as condições no Brasil e as perspectivas na maior parte das economias com algum peso. Nem sequer há espaço, no caso brasileiro, para um debate sobre como dosar estímulos monetários e fiscais. Com perspectiva de inflação na casa de 7% neste ano e acima da meta em 2017, será preciso ponderar com muito cuidado qualquer corte de juros. Quanto a incentivos pela via fiscal, nem pensar. A recuperação em outros países pode exigir nova combinação de instrumentos, mas o Brasil está fora dessa conversa.

 

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