Sem o direito de errar de novo

Na tentativa de ganhar tempo para trocar o comando da Petrobrás, achando que com isso adiaria a crise que consome o seu mandato, a presidente Dilma Rousseff acabou esticando demais a corda de seu já tenso relacionamento com Graça Foster. Criou para si mesma a perigosa armadilha de ter de abreviar substancialmente o tempo de que dispõe para compor um corpo diretivo que tenha condições mínimas para tentar resgatar a maior estatal brasileira do buraco em que foi jogada pelos desmandos da desgovernança petista que estão sendo investigados pela Operação Lava Jato no âmbito do maior escândalo de corrupção da história da República.

O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2015 | 02h06

A malograda intenção de Dilma Rousseff era, ao que tudo indica, repetir com sua amiga o que fizera com Guido Mantega: deixá-la virtualmente demitida - mas respondendo pelo expediente da Petrobrás - até que surgisse o momento que julgasse adequado para a tão reclamada substituição. O ideal seria que a diretoria da Petrobrás sob o comando de Graça Foster resolvesse o problema do balanço da empresa, que precisa ser auditado e publicado o quanto antes. Mas depois de ter sofrido durante meses com o fogo amigo e colocado seu cargo à disposição da chefe do governo duas ou três vezes, Graça Foster parece ter concluído que já era suficientemente credora de Dilma Rousseff, pela lealdade com que serviu à amiga.

Durante reunião de mais de duas horas de Graça com Dilma Rousseff na terça-feira, ficara acertado que a diretoria da estatal e o Conselho de Administração seriam substituídos depois de resolvido o problema do balanço. Como frequentemente faz, a presidente da República permitiu que os termos do acerto vazassem, sem que ninguém do governo viesse a público para confirmá-los.

O fato é que, de um dia para o outro, Graça Foster se convenceu de que havia chegado ao fim da linha e decidiu se assenhorear do seu próprio destino. Na manhã de ontem, a direção da Petrobrás anunciou, em comunicado oficial à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que a presidente da empresa e cinco diretores haviam renunciado a seus cargos e o Conselho Administrativo da empresa se reunirá amanhã para nomear um novo corpo de diretores. O comunicado à CVM foi feito em resposta à interpelação sobre a volumosa negociação das ações preferenciais da Petrobrás na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) na terça-feira, que resultara na forte valorização daqueles papéis: 15%.

Veja-se o tamanho da encrenca em que Dilma Rousseff ficou, com a renúncia precipitada de Graça Foster: terá menos de 72 horas para encontrar alguém que aceite investir-se da presidência da Petrobrás e, talvez mais difícil ainda, convencê-lo a aceitar nas condições de temperatura e pressão em que a empresa em crise se encontra.

Os nomes que há alguns dias circulam como possíveis substitutos de Graça Foster, pelo menos até quarta-feira, eram apenas parte das especulações que normalmente vêm na cauda das crises. O fato é que, estando as coisas como estão, Dilma não tem o direito de errar na escolha.

A repercussão internacional da renúncia de Graça Foster confirma essa premonição. Os principais jornais do mundo noticiaram o fato com destaque. O Financial Times, uma das publicações mais lidas pelo mundo dos negócios e que acompanha com atenção a evolução do escândalo da Petrobrás, transformou-o em sua principal notícia.

Os interesses financeiros ligados à Petrobrás, em jogo no mercado mundial, têm potencial para afetar gravemente a credibilidade da petroleira. A importância da empresa para a economia nacional dispensa discussões, de tão evidente. Urge, portanto, entregar o comando da Petrobrás - o Conselho de Administração e a diretoria executiva - a profissionais competentes que, para início de conversa, sejam respeitados pela comunidade de negócios, nacional e estrangeira.

Mas isso não bastará. A equipe a ser escalada terá de sanear a enorme lambança promovida na maior estatal brasileira pelas forças políticas que a tomaram de assalto nos últimos 12 anos. Dilma Rousseff, a herdeira de Lula, será capaz de dar início a essa obra de recuperação moral?

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