Sem solução à vista

Quem quisesse um hambúrguer em Nova York, nesta quinta-feira, não conseguiria comprá-lo com uma ação do Citigroup, celebrado, em tempos melhores, como a mais poderosa organização financeira do mundo. Em dezembro de 2006, o papel chegou a valer US$ 57,00. Nesta semana, foi vendido a US$ 0,97 no pregão nova-iorquino, juntamente com outras ações de bancos oferecidas em condições superpromocionais. Mas não caíram só os papéis do setor financeiro. Em todo o mundo os índices das bolsas foram ladeira abaixo, depois de uma breve animação na quarta-feira, quando se falava de um pacote chinês de mais de 1 trilhão de dólares. Mas nenhuma novidade concreta foi anunciada em Pequim. O programa de US$ 585 bilhões, novamente citado pelo primeiro-ministro Wen Jiabao, era bem conhecido e já não causava excitação nos mercados. Em contrapartida, novas notícias negativas continuavam a acumular-se, reforçando, em quase todo o mundo, a expectativa de uma crise profunda e sem previsão de encerramento. Sinais de otimismo quase irrestrito, só em Brasília, no círculo presidencial. Na quinta-feira, enquanto a ação do Citigroup furava para baixo a barreira de US$ 1, bolsas europeias fechavam com grandes quedas - 4,51% em Madri, 5,02% em Frankfurt, 5,85% em Milão, 3,18% em Londres e 3,96% em Paris. Horas antes, o Banco Central Europeu (BCE) havia baixado de 2% para 1,5% o juro básico da zona do euro. O Banco da Inglaterra (BoE) havia cortado a taxa de 1% para 0,5% e ainda anunciara a disposição de injetar no mercado, nos próximos três meses, 75 bilhões de libras (cerca de US$ 105 bilhões) por meio da compra de títulos públicos em circulação. Além de acionar mais uma vez o instrumento mais comum de política monetária, a taxa de juros, o BoE decidiu, portanto, recorrer à simples emissão de dinheiro, em mais um esforço para reativar os negócios. O uso de dois instrumentos ao mesmo tempo dá uma boa ideia de como as autoridades monetárias inglesas vêm o estado da economia. Os sinais de recessão na Inglaterra e na zona do euro são inequívocos e a crise não cede, apesar das fortes intervenções nos mercados, tanto para ajuda aos bancos quanto para socorro a indústrias em dificuldades. Nos Estados Unidos, o banco central (Federal Reserve, Fed) havia divulgado na quarta-feira seu livro bege, um panorama econômico produzido periodicamente. O diagnóstico não trouxe nenhuma boa notícia. Em janeiro e fevereiro, segundo o relatório, "a piora foi generalizada, com exceção de alguns setores, como o de produção de alimentos básicos e a indústria farmacêutica". A projeção mais otimista continua sendo aquela apresentada há poucos dias pelo presidente do Fed, Ben Bernanke: poderá haver alguma recuperação a partir do fim do ano ou do começo de 2010, mas essa hipótese é condicionada a melhoras no setor financeiro e à eficácia dos estímulos fiscais propostos pelo Executivo. Ao mesmo tempo, a consultoria ADP/Macroeconomic Advisers divulgava sua pesquisa nacional de emprego, baseada em dados de 500 mil empresas. Segundo o levantamento, 697 mil postos de trabalho foram fechados pelo setor privado em fevereiro. Em janeiro, haviam sido demitidos 614 mil. Os números do governo devem sair hoje. As pesquisas da ADP são em geral uma boa antecipação das estatísticas oficiais. A alegada decepção com a China pode ter sido exagerada, tanto quanto o otimismo exibido pelos investidores na quarta-feira. Se o governo chinês conseguir executar o programa de US$ 585 bilhões, com ênfase em obras, estímulo ao consumo e auxílio às famílias pobres, dará uma boa contribuição à economia mundial. A China voltou a importar grandes volumes de matérias-primas e isso é um bom sinal. A meta oficial de expansão de 8% pode ser muito ambiciosa, mas, de toda forma, um crescimento na faixa de 6% já será apreciável. Na vizinhança do Brasil o quadro é ruim. Os sul-americanos dependem principalmente da exportação de primários. Alguns preços podem continuar favoráveis, mas o comércio desses países vai diminuir. O quadro é mais complexo do que o governo brasileiro admite. A ação anticíclica, para dar certo e não comprometer as contas fiscais e as contas externas, terá de ser mais calibrada, com mais investimentos, mais apoio à exportação e menos gastos correntes.

, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2009 | 00h00

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