Semáforos e buracos

Planos e promessas de Doria para resolver o problema não faltam. Um deles, o Asfalto Novo, pretende recuperar um total de até 686 mil m² de vias ainda este ano. O tempo passa e logo saberemos se passará das palavras aos atos

O Estado de S.Paulo

14 Julho 2017 | 03h06

Uma coisa que certamente provoca particular revolta nos paulistanos é se ver às voltas – e há muito tempo – com problemas de solução relativamente simples e barata, mas que nem por isso deixam de infernizar o seu já difícil cotidiano, e de acarretar-lhes prejuízos. Vá lá que para os problemas maiores e de solução mais difícil e cara a grave crise por que passa o País – e se reflete duramente na cidade que é seu principal centro econômico – pode, com uma dose extra de tolerância, servir de desculpa, mas não para aqueles, entre os quais os semáforos que não funcionam e as ruas esburacadas.

Desde o final do ano passado, quando venceu o contrato de manutenção desses equipamentos ainda no governo do ex-prefeito Fernando Haddad, os semáforos vêm apresentando defeitos cada vez mais frequentes e cujo conserto é também mais demorado. As falhas nesse serviço têm um efeito importante sobre o já caótico trânsito da cidade, prejudicando o transporte tanto coletivo como individual e de carga.

Com o fim do contrato com as empresas encarregadas do reparo e manutenção dos semáforos, esse serviço passou a ser feito por 16 equipes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O prefeito João Doria atribui a culpa pela situação à gestão anterior, já que ela seria uma consequência do vencimento do contrato em dezembro. Querendo dizer com isso, supõe-se, que a transição não foi devidamente planejada.

É verdade. Mas é verdade também que a CET poderia ter se empenhado mais nesse trabalho, mesmo não sendo ele de sua especialidade. Em muitos casos, semáforos enguiçam e são consertados – portanto, precariamente – mais de uma vez por dia. Afinal, trata-se de uma situação de emergência, e para a população não importa quem é o responsável por ela. Com a conclusão, anunciada pela Prefeitura, depois de seis meses, do processo de licitação para a escolha das empresas que assinarão o novo contrato de manutenção e reparo dos semáforos, espera-se que o problema tenha uma solução.

Quanto aos buracos nas ruas, reportagem do Estado mostra que a eficiência do serviço de tapa-buracos da Prefeitura vem diminuindo desde 2010. Basta dizer que o número de buracos fechados entre janeiro e abril deste ano é 72% menor do que o de igual período de 2010. Nesses últimos sete anos, todos os prefeitos se saíram mal nesse setor, o que explica o lamentável estado de deterioração das vias públicas da capital, tratadas com descaso durante tanto tempo. Na maior parte da cidade, aliás, já não se trata de tapar buracos, mas de fazer o recapeamento completo das ruas, tal o estado calamitoso a que chegaram.

Recuperar o tempo perdido, portanto, não será fácil, como Doria já deve ter percebido. A média mensal dos buracos tapados por seu governo até abril, de 17.357, só é ligeiramente superior à média de 16.653 de Haddad em 2016, um ritmo insuficiente para tirar a enorme diferença. As perspectivas do atual governo não são mesmo das melhores, a continuar a tendência da execução orçamentária detectada pela reportagem: as 32 prefeituras regionais liquidaram entre janeiro e abril apenas 14% dos R$ 231,7 milhões previstos para a manutenção de vias e áreas. Nem mesmo reparos indicados pelos vereadores – em geral prontamente atendidos por razões políticas – têm sido feitos.

A vergonhosa proliferação de buracos pela cidade é tal que há mesmo casos de alguns que têm até aniversário comemorado. Duram meses e meses, viram crateras nas quais só não caem os experimentados moradores das vizinhanças.

Planos e promessas de Doria para resolver o problema não faltam. Um deles, o Asfalto Novo – de recapeamento, que vai portanto além de apenas tapar buracos, mas previne seu surgimento –, pretende recuperar um total de até 686 mil m² de vias ainda este ano. O tempo passa e logo saberemos se passará das palavras aos atos.

O prefeito, que continua a ganhar prestígio graças às ideias que tem, não deve se esquecer de que seu futuro político depende de demonstrar que sabe resolver problemas.

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