Semáforos quebrados

São Paulo ainda não está no auge dos temporais de fim de ano, mas os últimos dias já serviram de amostra para as agruras que aguardam o paulistano: não bastassem os alagamentos, as chuvas recentes, que foram apenas moderadas, apagaram dezenas de semáforos em cruzamentos importantes - só no último dia 4, nada menos que 173 deixaram de funcionar.

O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2013 | 02h15

Em fevereiro passado, em meio ao caos por conta dos semáforos pifados, o prefeito Fernando Haddad, assim como haviam feito vários de seus antecessores, prometera investir pesado para acabar de vez com o problema. "Estou inconformado com a situação", disse Haddad, que constatara o óbvio: a rede de semáforos "está precária", pois quatro de cada cinco precisavam de reparos.

Naqueles primeiros dois meses do mandato de Haddad, ocorreram mais de cem panes por dia, totalizando 6.508, cerca de 15% a mais do que no mesmo período de 2012. Segundo comentou o prefeito, o quadro era tão ruim que a CET não tinha estoque para efetuar a troca de peças danificadas. Faltavam também os equipamentos chamados no-breaks, que mantêm os semáforos funcionando por algum tempo mesmo em caso de queda de energia. Haddad disse que os poucos no-breaks disponíveis eram de qualidade duvidosa.

Para atenuar o problema, a Prefeitura anunciou na ocasião um plano para recuperar 4.800 dos 6.169 semáforos em cruzamentos. De imediato, haveria um investimento de R$ 1 milhão para a compra de circuitos interligados, reguladores de tensão, capacitores, fusíveis, lâmpadas e interruptores. Além disso, empresas seriam contratadas para fazer a manutenção dos semáforos em 270 cruzamentos da região central.

O pesadelo do dia 4 passado mostrou que nada disso foi suficiente. Houve problemas em toda a cidade, com destaque para as zonas leste e oeste, em avenidas importantes como Jacu-Pêssego, Itaquera, Doutor Arnaldo, Rebouças e Vital Brasil.

Muitas vezes não é necessário nem que chova para que os semáforos não funcionem. Um exemplo recente ocorreu no cruzamento das Avenidas Ibirapuera e República do Líbano, onde dois semáforos ficaram quebrados durante o final de semana passado, complicando o trânsito. Segundo moradores, técnicos da Prefeitura chegaram a consertar os equipamentos, mas eles tornaram a apresentar defeito horas depois. Tal situação se repete em vários pontos da capital.

A Prefeitura procura mostrar que está atenta ao problema. O secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto, anunciou na semana passada a construção de uma central de manutenção semafórica, que detectará automaticamente onde estão os semáforos com defeito na cidade - hoje, é necessário que a CET seja avisada pelos motoristas. Orçada em R$ 2,5 milhões, a central "representa uma revolução", nas palavras do secretário, mas a cidade desfrutará de tanta modernidade somente no verão do ano que vem.

Enquanto isso, a CET pede aos cidadãos que lhe doem cadeiras, aparelhos de TV, impressoras, telefones, notebooks e ventiladores, conforme solicitação publicada no Diário Oficial do Município em março. Esse vexame, assim como o recorrente pesadelo dos semáforos quebrados, é a realidade de um serviço público que não dá a devida destinação aos abundantes recursos que lhe são fornecidos pelos contribuintes e pela indústria das multas. Mas promessas não faltam. O antecessor de Haddad, Gilberto Kassab, disse ter investido R$ 50 milhões no sistema de semáforos, esse mesmo que o atual prefeito encontrou sucateado.

Agora é a vez de Haddad falar em investimentos - segundo ele, serão R$ 100 milhões para resolver o problema até 2015. Já a CET diz que a Prefeitura vai gastar R$ 221,94 milhões em "revitalização semafórica", parte de um pacote de R$ 550 milhões para a criação de uma "Central Integrada de Mobilidade Urbana". Os números são vistosos, e Haddad promete um sistema "de Primeiro Mundo". Para o paulistano, cansado de ser maltratado no trânsito, basta simplesmente que os semáforos funcionem.

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