Será a posse antecipada?

Presidente eleito soube misturar a gasolina e a palha seca que o PT espalhou pelo País

*FLÁVIO TAVARES, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2018 | 03h00

O cotidiano posterior à eleição presidencial vai muito além daquele “terremoto” com que a serena experiência de Fernando Henrique Cardoso definiu os resultados. Se na campanha a violência foi verbal e a “ameaça à democracia” era mera disputa entre adversários, agora, na transição, sinais de cataclismo futuro se unem aos augúrios.

Vejamos por partes. No “terremoto”, tudo desmoronou. As estruturas partidárias caíram como aglomeração de gente a esmo. Os projetos de governo foram substituídos pela individualidade das “redes” da internet, que o candidato eleito habilmente utilizou nos últimos quatro anos e o fizeram triunfar.

Nas “redes” tudo se diz como verdade absoluta, até o inventado. O contraditório não existe. Pode-se divergir, mas o debate não se propaga nem entra “em rede”.

O candidato Jair Bolsonaro soube ser contundente e direto nessa comunicação. Veemente, virou centro de atenção de um povo cansado das palavras ocas de políticos corruptos mancomunados com grandes empresas. Parecia até que ele próprio não era também um político veterano, que há 27 anos habitava o lodaçal. O Estado do Rio de Janeiro (que o elegeu deputado) concentrou nos tempos do governador Sérgio Cabral uma corrupção escancarada que roubou bilhões, mas de que ele nunca suspeitou e jamais denunciou.

A arrogância com que o PT e o lulismo nos governaram, porém, abriu caminho e alimentou a “guerra relâmpago” na qual Bolsonaro se apresentou como “o justiceiro” que encarnava a rebelião popular contra a corrupção. Nesse vale-tudo, Bolsonaro ressuscitou até a guerra fria, sepultada no século passado. Fantasiou a “ameaça vermelha comunista” e, assim, acendeu a violência no imaginário popular, rebelado contra o desmando e a indecência no poder público.

Eram tempos em que o PT se dizia “descobridor do Brasil”. Nada existia antes dele; e - ostentando a cor vermelha e com pose de esquerda - afagava os banqueiros e afogava o “povão” e o “povinho” nas migalhas do Bolsa Família. Sentia-se indestrutível, supremo e eterno. Assim, perante o povo, o PT acabou respondendo sozinho pela corrupção na Petrobrás, em que abriu caminho para que o paulomalufista PP e o PMDB executassem a rapina grossa.

O hoje presidente eleito soube misturar a gasolina e a palha seca que Lula e o PT espalharam e cujo chefe supremo, mesmo condenado e preso, ainda hoje é um semideus, como Stalin em vida.

Esse clima de furiosa alienação teve seu contraponto em dose múltipla. A partir de 2014, quando começou a percorrer o País, Bolsonaro foi filmado empunhando armas para “exterminar o PT e os vermelhos”. Já não dizia, como antes (quando apenas deputado), que “eleição nada resolve” e que “só uma guerra civil” sanaria os problemas, mesmo “morrendo 30 mil ou mais”. Não abandonou, porém, a ideia “da bala” e seu emblema passou a ser os dedos da mão simulando um revólver.

Em plena campanha eleitoral, foi esfaqueado na rua. E já para a primeira fotografia no hospital posou com os dedos imitando pistola. A linguagem violenta atenuou-se na dor, mas já fora assimilada pelos seguidores. Agora, após a eleição, a segunda parte - aparentemente, o cataclismo foi além das urnas. Nem parece ter derrubado as carcomidas estruturas para reabilitá-las, mas para praticar um sistema de vigilância e fiscalização sobre a imprensa, o pensamento e o ensino, enfim, sobre o cerne das liberdades individuais.

Primeiro, uma deputada eleita em Santa Catarina pelo PSL de Bolsonaro criou “um canal anônimo” na internet para “denunciar” professores das universidades. (A internet apenas modernizou o que fez Hitler.) Logo, em São Paulo, um aluno da Mackenzie propôs, de público, “matar vagabundos de camisa vermelha e a negraiada” (sic). Algo similar só não se alastrou na Faculdade de Direito das Arcadas porque o diretor, professor Floriano Azevedo Marques Neto, repudiou o absurdo na escola que jamais se dobrou ao totalitarismo.

Nada seria grave, mas só fruto da “campanha radical”, não fosse o que o próprio presidente eleito disse depois. Pela TV lançou palavras persecutórias a um jornal paulista que - segundo ele - “mentiu” ao criticá-lo. Assim (mesmo dizendo respeitar a Constituição e a liberdade de informar), como futuro presidente se atribuiu poderes de inquestionável tribunal. 

Logo afirmou que o futuro ministro da Educação “vai expulsar Paulo Freire” das escolas para que os jovens não aprendam sexo. Respeitada nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, a pedagogia do metodista Paulo Freire nada diz sobre sexo que já não tenha sido abordado na Bíblia Sagrada ou no Evangelho de João, a partir de “a verdade vos libertará”…

Até aqui, entre os presidentes eleitos, Jânio e Collor eram os exemplos máximos da exacerbação política, mas jamais se atreveram a entrar na vida e no comportamento individual. Suas eventuais “loucuras” se apoiavam em “razões de Estado”, que, corretas ou falsas, não imitavam o “pensamento único” das ditaduras com que se deliciaram Hitler e Stalin.

Nem nos momentos mais duros da ditadura implantada em 1964 vimos o ódio guiar as ações de governo, nem a supressão de direitos e liberdades enaltecerem a morte. A tortura e o assassinato eram “coisa de psicopatas nos porões” e, assim, nunca foram reconhecidas oficialmente.

Nos primórdios de sua candidatura, o hoje presidente eleito disse que o erro de 1964 foi torturar, “em vez de matar”. Depois silenciou, como se desdizendo. Agora, ao escolher o juiz Sergio Moro para ministro da Justiça, o presidente eleito aponta a rumo oposto, no qual o Direito se une à liberdade. 

E já dormimos em paz, antecipando neste 2018 os dias seguintes a 1.º de janeiro de 2019.

*JORNALISTA E ESCRITOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005, PRÊMIO APCA EM 2004

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