Setor externo continua firme

Com superávit comercial de US$ 64,02 bilhões e saldo de US$ 59 bilhões previsto para este ano, o País continua com boa perspectiva para o setor externo

O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2018 | 03h03

Com superávit comercial de US$ 64,02 bilhões no ano passado e saldo de US$ 59 bilhões previsto para este ano, o Brasil continua com boa perspectiva para o setor externo – uma bênção muito especial, neste momento, quando se consideram as incertezas da política interna e a paralisação do programa de reformas. As boas condições do balanço de pagamentos foram confirmadas, mais uma vez, com a divulgação, pelo Banco Central (BC), dos números de janeiro. No mês passado entraram US$ 6,47 bilhões de investimento direto líquido, valor suficiente para cobrir com folga o déficit de US$ 4,31 bilhões em transações correntes. Esse déficit chegou a US$ 8,99 bilhões em 12 meses, enquanto o investimento direto somou US$ 65,34 bilhões.

Contas externas em mau estado e crise cambial, isto é, escassez de dólares, marcaram a maior parte dos grandes tropeços econômicos do Brasil. Não houve, no entanto, problema cambial na última grande crise brasileira, embora o déficit em transações correntes tenha chegado a 4,24% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e ficado em 3,31% em 2015. No ano passado, de forte recuperação, o buraco equivaleu a apenas 1,31% do produto e foi financiado por investimento direto correspondente a 3,04%.

As transações correntes, também conhecidas como conta corrente do balanço de pagamentos, são um resumo do intercâmbio do País com o exterior. Incluem a balança comercial de mercadorias (agropecuárias, minerais e industriais), a conta de serviços (viagens, transportes e aluguéis de equipamentos) e as de renda primária (como entrada e saída de lucros e juros) e secundária (principalmente dinheiro enviado a familiares por trabalhadores no exterior).

O comércio de mercadorias é normalmente superavitário. Os serviços e a renda secundária são deficitários. A renda secundária, positiva, pouco pesa no conjunto, embora possa ser importante para muitas famílias. Déficit em transações correntes pode ser útil para a economia nacional, quando o recurso externo usado para cobrir o buraco reforça o investimento produtivo e ajuda a acelerar o crescimento. Mas é preciso manter sob controle o resultado negativo.

No Brasil, o superávit comercial de mercadorias tem sido suficiente, exceto em fases desastrosas, para atenuar o efeito do déficit em serviços e rendas e, assim, conservar em nível seguro o déficit em conta corrente. No ano passado, a conta de mercadorias foi fechada com saldo positivo de US$ 64,02 bilhões. Em 2018, o superávit deve diminuir para US$ 59 bilhões, segundo o BC.

O resultado, embora muito satisfatório, será menor porque a recuperação da atividade econômica levará a um aumento da importação de bens, tanto de consumo como de produção, de US$ 152,21 bilhões para US$ 166 bilhões. O total exportado também crescerá, mas em proporção menor, de US$ 217,24 bilhões para US$ 225 bilhões. As projeções do BC indicam para este ano um crescimento econômico de 2,6%, pouco inferior aos números, mais próximos de 3%, estimados pelas instituições financeiras, consultorias e pelo Ministério da Fazenda.

Contas externas saudáveis dependem da evolução do comércio global, por enquanto favorável, e das condições externas de financiamento e de investimento. O quadro global continua benigno, mas há riscos, lembrou o presidente do BC, Ilan Goldfajn, em São Paulo. Ele já repetiu essa advertência muitas vezes. Documentos do BC também têm reiterado o alerta. Nas bolsas de valores, analistas acompanham os sinais de mudança nas políticas monetárias do mundo rico, especialmente dos Estados Unidos. Um aperto de juros mais veloz que o previsto até agora poderá afetar perigosamente as condições do mercado.

No Brasil, o alerta das autoridades monetárias vale principalmente para outras autoridades – parlamentares e membros do Executivo. Relaxar o ajuste das finanças públicas afetará a inflação e a política interna de juros e deixará o Brasil mais vulnerável a choques. Fora da equipe econômica, quase ninguém parece dar alguma atenção ao aviso.

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