Setor externo vai bem

Investimento estrangeiro direto vem cobrindo com folga as necessidades do balanço de pagamentos

O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 05h00

O Brasil vai bem pelo menos do lado externo, com o investimento estrangeiro direto cobrindo com folga as necessidades do balanço de pagamentos e dando um suporte precioso aos negócios. O País absorveu US$ 84,4 bilhões – valor líquido – nos 12 meses terminados em fevereiro. Esse total, equivalente a 4,59% do Produto Interno Bruto (PIB), foi mais que suficiente para compensar o déficit de US$ 22,8 bilhões (1,24% do PIB) nas transações correntes. Apesar da recessão, da crise fiscal e da incerteza política, investidores estrangeiros, com ou sem companhias em operação no território nacional, continuaram jogando suas fichas na economia brasileira. O pouco investimento produtivo realizado nos últimos anos teria sido muito menor sem esse capital, aplicado pela primeira vez ou reaplicado pelas filiais de empresas de fora.

A crise iniciada em 2014 foi muito diferente das anteriores, ou da maior parte delas, pela situação das contas externas. A diferença foi positiva. No Brasil, crise econômica foi quase sempre sinônimo de graves problemas de balanço de pagamentos, com buracos na conta de mercadorias, rombos enormes nas transações correntes, fuga de investidores e reservas sumindo pelo ralo.

Esse quadro forçou o governo, mais de uma vez, a renegociar a dívida com os credores e a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em várias dessas ocasiões o abalo resultou de turbulências no mercado internacional.

Desta vez, os problemas foram integralmente fabricados no Brasil. Um raro acerto da política econômica, a acumulação de reservas por iniciativa do Banco Central (BC), reforçou a segurança externa. Além disso, a persistência do crescimento chinês e o início de reação das economias desenvolvidas sustentaram as vendas do agronegócio, mesmo quando os preços começaram a recuar.

Na pior fase da crise houve alguma deterioração do balanço de pagamentos. A indústria, estagnada por erros da política econômica, perdeu competitividade. O câmbio também prejudicou as exportações, em certos momentos. Mas quando a cotação do dólar subiu e as condições ficaram mais favoráveis, a reação foi fraca. Durante algum tempo as exportações caíram, mas o recuo das importações foi bem maior, refletindo o enfraquecimento do mercado interno. Por esse lado, a recessão impediu uma deterioração maior das contas externas.

Em 2013, 2014 e na maior parte de 2015 o investimento estrangeiro direto foi insuficiente para cobrir o déficit em transações correntes. Essa conta resume o comércio de mercadorias, os pagamentos e recebimentos de serviços (como viagens, fretes, seguros e aluguéis de equipamentos) e as transferências de rendas (como saídas e ingressos de lucros, juros e remessas unilaterais de trabalhadores e de outras fontes). A partir de novembro de 2015 o ingresso de investimento líquido direto sempre cobriu com sobra esse déficit.

Além disso, o buraco diminuiu de mais de 4% do PIB em 2014 e em parte de 2015 para menos de 2% em 2016. Nos 12 meses até fevereiro deste ano, ficou em 1,24%. O estoque de reservas internacionais oscilou moderadamente durante a crise e em fevereiro chegou a US$ 375,3 bilhões, praticamente no mesmo nível de 2013.

A reanimação da economia, embora modesta, já afeta e continuará afetando o balanço de pagamentos, com mais importações e mais gastos no exterior. Segundo o BC, o valor exportado aumentará 8,45%, para US$ 200 bilhões, enquanto o das importações chegará a US$ 149 bilhões, com alta de 6,89%. O superávit comercial passará de US$ 45 bilhões em 2016 para US$ 51 bilhões e o déficit em transações correntes subirá de US$ 23,5 bilhões para US$ 30 bilhões, refletindo os maiores gastos com serviços (especialmente viagens) e remessas maiores de rendas.

Mas alterações maiores nas contas externas dependerão de mudanças mais amplas no País, com ganhos de produtividade, mais dinamismo na indústria e maior integração nas cadeias internacionais de valor. O maior ajuste deve ser a valorização da eficiência e da inserção no sistema global.

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