Significado do leilão do pré-sal

É possível construir, desde já, caminhos para dias melhores no Brasil e é nisso que confiam dirigentes das principais empresas petrolíferas do mundo ao investir no potencial brasileiro

O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 03h00

Embora o acirramento da campanha eleitoral em curso esteja desenhando um país tão fraturado a ponto de ter seu futuro ameaçado – e as candidaturas que despertam as maiores simpatias do eleitorado pareçam empenhadas em aprofundar as fissuras –, é possível construir desde já caminhos para dias melhores no Brasil. É nisso que confiam dirigentes das principais empresas petrolíferas do mundo, cuja disposição de realizar investimentos de longo prazo no País assegurou, na sexta-feira passada, o êxito do último leilão de petróleo no governo do presidente Michel Temer. A venda das quatro áreas do pré-sal ofertadas propiciará a arrecadação imediata de R$ 6,82 bilhões; ao longo da vigência dos contratos, a arrecadação poderá chegar a R$ 235 bilhões.

Sem dúvida o clima eleitoral marcado pela predominância de posições extremadas assusta eleitores sensatos e pessoas com responsabilidade sobre decisões cujos frutos são de longo prazo. Mas, como destacaram executivos de multinacionais da área de petróleo, este é um país com grande potencial de crescimento, que tem acolhido investidores estrangeiros e respeitado leis e contratos. Por isso, a despeito do ambiente politicamente tenso, investirão nas oportunidades de negócios aqui oferecidas.

Ao todo, 12 empresas estavam inscritas para participar da 5.ª Rodada de Partilha do petróleo do pré-sal, a ser explorado ao longo de 35 anos. Entre elas estavam as grandes petroleiras, como Chevron, ExxonMobil, BP, Shell e Total, além da chinesa CNOOC. Nas rodadas do pré-sal a competição é feita pelo porcentual de excedente em óleo oferecido à União. O certame envolveu as áreas de Saturno, Titã, Pau Brasil e Sudoeste de Tartaruga Verde, nas bacias petrolíferas de Santos e Campos.

O consórcio formado pela Shell e pela Chevron arrematou o bloco Saturno, com a oferta de excedente de óleo de 70,20% (ante o mínimo de 17,54%). O bônus de assinatura predefinido era de R$ 3,125 bilhões. O consórcio liderado pela ExxonMobil arrematou o bloco Titã, com oferta de 23,49% do excedente (mínimo de 9,53%) e bônus também de R$ 3,125 bilhões.

Vencedor da disputa pelo bloco Pau Brasil, com oferta de 64,79% (mínimo de 24,82%) e bônus de R$ 500 milhões, o consórcio liderado pela BP estreará no pré-sal. A Petrobrás levou, sem disputa, a área de Tartaruga Verde, com oferta mínima de 10,01% e bônus de R$ 70 milhões.

Com esses números e com base nas novas cotações do petróleo, a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), responsável pelo leilão, reestimou seus cálculos da arrecadação que esses poços propiciarão ao longo de 35 anos, elevando-os de R$ 180 bilhões para os R$ 235 bilhões agora esperados.

Além dos números, por si expressivos, há alguns aspectos do resultado do leilão que merecem ser observados. O primeiro é o fato, destacado pelo diretor-geral da ANP, Décio Oddone, de que não se está mais na dependência a uma única empresa, a Petrobrás, que explorava sozinha o pré-sal. “Se tivermos uma crise com uma dessas companhias (vencedoras do leilão), como tivemos com a Petrobrás nos últimos anos, não ficaremos dependentes.”

Também as razões que levaram as empresas internacionais a investir no Brasil merecem ser lembradas. “Temos uma visão que considera 30 anos de investimentos”, disse o presidente regional da BP na América Latina, Felipe Arbelaez. “E o Brasil tem um longo passado de respeito às leis e aos contratos”, por isso “não estamos preocupados com a eleição”. O que a empresa espera é que as regras anunciadas para o leilão sejam cumpridas.

Também o presidente da Shell Brasil, André Araújo, lembrou que o País respeita contratos e, por isso, “continuamos avançando nas nossas apostas”. Mesmo tendo perdido a disputa pelo campo de Saturno, a ExxonMobil, segundo sua presidente no Brasil, Carla Lacerda, considerou satisfatório o resultado. A empresa confia na manutenção do cronograma da ANP para as próximas licitações e vai analisá-las uma a uma. A empresa agora opera 26 blocos no Brasil.

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