Sinais de mais arrocho

Não haverá surpresa se um novo aumento de juros for decidido no fim de abril, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável principal pelo combate à inflação. Os preços continuam subindo rapidamente e as pressões inflacionárias devem permanecer muito fortes nos próximos meses, segundo as projeções do mercado e do próprio governo. Um arrocho maior para conter o consumo e dificultar o repasse de aumentos parece inevitável. Segundo o Copom, os avanços no combate à inflação - como a melhora das expectativas de médio e de longo prazos - ainda são insuficientes.

O Estado de S.Paulo

14 Março 2015 | 02h05

Essa observação aparece no final da ata da última reunião do Comitê, formado por diretores do Banco Central (BC). Nessa reunião, nos dias 3 e 4 de março, a taxa básica, a Selic, foi elevada de 12,25% para 12,75% ao ano. A ata foi publicada na quinta-feira passada. No mercado financeiro, a expectativa era de uma taxa de 13% no fim do ano, segundo a pesquisa Focus, conduzida semanalmente pelo BC.

Ninguém no governo pode queixar-se de terrorismo do mercado. Os economistas do setor financeiro vêm apostando numa significativa melhora da situação dos preços até o próximo ano. Para 2015, a mediana das projeções ainda apontava, na última pesquisa Focus, uma inflação de 7,77%. A estimativa para 2016 ficou em 5,51%, ainda bem longe da meta de 4,5%, mas bem menos sombria que a deste ano. A taxa Selic, nesse caso, será reduzida para 11,5%.

Sem revelar os números previstos pelo BC, a Ata do Copom menciona uma piora da estimativa para este ano e indica uma expectativa de convergência para a meta "ao longo" do próximo ano. Segundo o texto, "o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem-se fortalecido". Essa afirmação é ainda cautelosa e fica longe, apesar do aparente otimismo, de uma firme previsão de sucesso.

Por enquanto, as projeções são de piora do quadro nos próximos meses. Se tudo correr segundo os planos, na etapa seguinte a inflação começará a ceder e, na hipótese mais otimista, seguirá sem desvio para a meta. Mas os dados mais tangíveis, neste momento, são preocupantes. O Copom elevou de 9,3% para 10,7% a projeção de alta, em 2015, dos preços administrados por contrato e monitorados. A piora foi bem menos sensível na estimativa para 2016, elevada de 5,1% para 5,2%.

O aumento da inflação, desde o segundo semestre do ano passado, tem resultado em parte do realinhamento dos preços nacionais em relação aos internacionais e dos administrados em relação aos livres. Esse duplo ajustamento inclui, naturalmente, a correção de preços contidos durante longo tempo, como os da eletricidade e do transporte público, e também os efeitos da alta do dólar. Trata-se, em boa parte, de uma indispensável correção de erros dos últimos quatro anos, mas a ata, como seria previsível, passa longe de comentários desse tipo.

Se a correção é necessária e saudável para a economia brasileira, o problema do Copom é evitar o impacto nos demais preços. Na linguagem da ata, "a política monetária deve e pode conter os efeitos de segunda ordem" decorrentes desses aumentos. Sem o contágio, a espiral inflacionária será freada.

Mas a inflação decorre também de outros fatores, como o gasto público excessivo, o aumento de salários acima dos ganhos de produtividade e, de modo geral, o descompasso entre a demanda e a oferta de bens e serviços. A ata indica otimismo quanto à evolução das contas públicas, talvez com mais razão do que em ocasiões anteriores.

O documento menciona, além disso, a expectativa de uma acomodação da demanda "no horizonte relevante para a política monetária". O crédito, segundo o texto, já tem avançado mais moderadamente. Quanto ao crescimento econômico, será "inferior ao potencial" - muito baixo, certamente, já que o potencial diminuiu nos últimos quatro anos. A estimativa do BC vai ser conhecida em breve, quando sair seu novo relatório trimestral sobre as condições da economia. No mercado, a previsão para 2015 é de produção em queda.

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo Opinião

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.