Sinais novos em Teerã

Não há como não saudar os sinais conciliadores emitidos pelo novo presidente iraniano, Hassan Rohani, depois de oito anos de arreganhos do antecessor Mahmoud Ahmadinejad. Mas o realismo e o retrospecto recomendam circunspecção.

O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2013 | 02h18

Na cerimônia de investidura perante o Majlis, o Parlamento nacional, Rohani usou termos como moderação, esperança, prudência, paz e estabilidade, e nomeou para o Ministério do Exterior o veterano diplomata e ex-embaixador nas Nações Unidas Javad Zarif, persona grata em Washington em razão da sua conduta durante as conversações secretas que manteve com seus homólogos americanos anos atrás. Desde a Revolução Islâmica de 1979, Irã e Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas.

Mas a reconstrução do diálogo iraniano com o Ocidente em geral e os EUA em especial sobre o megacontencioso acerca do qual se confrontam - o programa nuclear de Teerã - esbarra de saída na ordem de prioridades manifestadas de lado a lado. Rohani instou os governos que buscam a "resposta correta" do país nessa matéria a "usar a linguagem do respeito, em vez das sanções opressivas". Em questão de horas, a Casa Branca disse que o novo presidente terá nos EUA um "parceiro disposto" - desde que se comprometa "substantiva e seriamente a cumprir as suas obrigações internacionais".

Nada, em princípio, que obste o traçado a quatro mãos de um roteiro gradual e seguro de "toma lá dá cá". O arranjo permitiria a Rohani fazer boa figura perante o detentor da palavra final sobre o programa atômico, o chamado Líder Supremo do regime teocrático, o aiatolá Ali Khamenei, à medida que fossem rediscutidas concomitantemente as levas de punições econômicas impostas pelo Conselho de Segurança da ONU por presumíveis violações do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual o Irã é signatário.

Ocorre que Rohani, quando negociador-chefe nuclear, no governo de Mohammad Khatami (1997-2005), deu o passo sem precedentes de concordar com a suspensão do programa de enriquecimento de urânio (que, a partir de certo nível, permite a confecção de uma bomba atômica) e de eliminar as restrições à fiscalização das instalações nucleares do país, exigidas por Washington. Os EUA, à época sob Bush, se recusaram a fazer qualquer gesto recíproco - o que desmoralizou Rohani e reforçou a crença da linha dura iraniana de que o objetivo do Ocidente não era mudar a política nuclear do país, mas destruir a República Islâmica.

Obama pode ser diferente de Bush, mas o Congresso americano é tudo menos um "parceiro disposto" de quem quer que governe o Irã. Na semana passada, a Câmara aprovou um novo pacote unilateral de sanções, tornando-as ainda mais asfixiantes. A proposta subirá ao Senado em setembro, coincidindo, por sinal, com a abertura da Assembleia-Geral da ONU, período de intensas conversações entre chefes de governo presentes em Nova York. Hoje, de todo modo, poucos acreditam que Obama comprará briga com o Capitólio por causa do projeto.

Os defensores das sanções têm a seu favor o fato de que, em sentido estrito - o de privar o Irã de moeda forte -, elas estão funcionando. O Irã era o segundo maior exportador de petróleo do mundo; hoje é o sexto. A China compra o produto iraniano, mas paga, por exemplo, em vagões para o metrô de Teerã. Falta dinheiro para importar alimentos, remédios - e até para custear um amistoso da seleção, classificada para a Copa, em Portugal.

Há pouco, pela primeira vez, um iraniano, o professor Sadegh Zibakalam, da Universidade de Teerã, atacou publicamente a política nuclear do país. "Por que manter um programa nuclear que não se justifica economicamente?", desafiou, numa entrevista. Mas, para a opinião pública iraniana - dos zelotas islâmicos aos jovens cosmopolitas de Teerã -, ceder às sanções equivaleria a abrir mão de um "direito inalienável". O que Rohani propõe tacitamente é usar o programa como moeda de troca para o Irã "reaver a posição que merece entre as nações".

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