Sinal de alerta

São preocupantes os sinais de que, passado o susto provocado pela possibilidade de racionamento, boa parte dos habitantes da capital volta a gastar mais água do que a situação permite, o que traz de volta o risco de que aquela medida extrema tenha de ser adotada. Essa perigosa mudança nos hábitos dos consumidores, que aciona o sinal de alerta, foi comprovada por pesquisa feita por uma administradora de condomínios em 1.700 dessas unidades, sendo 90% delas na capital.

O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2015 | 03h00

Caiu de 82%, em março, para 76%, em junho, a adesão dos condomínios ao programa de bônus da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que dá desconto de até 30% aos consumidores cujas contas ficam abaixo da média de antes da crise, entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014. Esse é um dado relevante, porque a economia de água estimulada pelo bônus foi e continua sendo um dos principais instrumentos de que o governo dispõe para enfrentar a seca, a maior dos últimos 80 anos, que atinge vários Estados das Regiões Sudeste e Centro-Oeste, especialmente São Paulo.

Vários casos levantados pela reportagem do Estado mostram, comprovando a pesquisa, os efeitos práticos para os consumidores dessa mudança de atitude. A conta de um deles ficava em torno de R$ 60 antes da crise, baixou para R$ 18 no auge da seca, por causa da economia e do bônus, e já subiu para R$ 45. A conta de um prédio na Consolação, região central, saltou de R$ 3,5 mil para R$ 6,9 mil, um aumento que supera o reajuste da tarifa e a perda do bônus.

Para complicar a situação, o risco não vem apenas daí, mas também da falta de chuvas, que têm sido menos intensas do que o esperado. O estoque de água está 19% menor do que o de um ano atrás e as perspectivas de recuperação não são animadoras. Dados da Sabesp indicam que a quantidade de água que chegou a todos os mananciais no início de agosto foi 50% menor do que se previa. A situação do Sistema Cantareira continua delicada, porque seu estoque está 35% menor do que há um ano.

As consequências da combinação desses dois elementos – o relaxamento dos consumidores e a persistência da seca – já começam a se fazer sentir. A Sabesp foi obrigada a aumentar a produção de água na região metropolitana, que entre fevereiro e agosto subiu 6% e levou a uma retirada maior tanto do Cantareira como do Sistema Alto Tietê. Está na hora, portanto, de o governo do Estado fazer uma reavaliação da sua conduta diante da crise hídrica, principalmente no que se refere à maneira de obter uma maior colaboração dos consumidores, até porque em última análise são eles os primeiros interessados em evitar medidas drásticas.

A urbanista Marussia Whately, do grupo Aliança pela Água em São Paulo, está certa ao apontar os elementos que explicam a mudança de atitude dos consumidores – as chuvas mais intensas este ano, que elevaram um pouco o nível dos reservatórios, a diminuição das campanhas para o uso racional da água e a redução do noticiário sobre a crise nos meios de comunicação, por causa de seu alívio temporário. A seu ver, tudo isso, somado à forma como o governo vem tratando a questão, com ênfase nas obras que estão sendo feitas para aumentar a produção de água e a insistência em dizer que não vai haver racionamento, “gera um mau entendimento” da situação. “O fato é que temos menos água e as perspectivas de chuva não são boas”, acrescenta.

A possibilidade de um duro racionamento, de cinco dias sem água para dois com, provocou na população um susto saudável que, juntamente com os incentivos da Sabesp, levou a uma sensível redução do consumo. Por isso, as seguidas declarações do governador Geraldo Alckmin, afastando o racionamento, se por um lado tranquilizaram os consumidores, o que é positivo, por outro, como está se vendo agora, acabaram por reduzir a vigilância. Para evitar o pior é preciso retomar as campanhas em prol da economia de água e expor com franqueza à população a gravidade da situação.

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