Sobra radar, falta semáforo

A falta de lâmpadas novas e o reaproveitamento de material usado de outros semáforos, para tentar assim manter um mínimo de ordem no trânsito da capital paulista - às vezes fica faltando uma das luzes (vermelha, amarela ou verde) -, não são um problema menor, como pode parecer à primeira vista. Além de considerar o risco de acidente que isto pode acarretar, é preciso também colocar esse caso no contexto mais amplo, tanto de escolhas equivocadas de prioridades na área de trânsito como da falta de manutenção adequada dos equipamentos urbanos.

O Estado de S.Paulo

03 Junho 2012 | 03h06

Reportagem do Estado constatou um desses casos no bairro do Ipiranga, no cruzamento das Ruas Comandante Taylor e Lino Coutinho, quando o empregado de uma empresa que presta serviço à CET retirou uma lâmpada do foco amarelo para colocá-la na do vermelho, que havia queimado. E durante cinco dias os repórteres percorreram 90 quilômetros de vias e constataram que em dezenas de cruzamentos existiam semáforos com pelo menos uma das lâmpadas queimadas há dias.

Somente em bairros do centro expandido como Higienópolis, Perdizes, Pinheiros, Pompeia, Vila Madalena e Jardins foram encontrados 40 semáforos com defeito. Num raio de 2,5 km, entre as Ruas Cardoso de Almeida, Paraguaçu, Doutor Veiga Filho, Brasílio Machado, Doutor Cândido Espinheira e Alameda Barros, havia nove semáforos com uma das três luzes apagadas. Naqueles cinco dias, só 2 dos 40 equipamentos foram consertados.

Segundo especialistas na questão, a falta de qualquer das três luzes de semáforos afeta seriamente a segurança do trânsito. Por exemplo: se não houver luz amarela, o motorista pode ficar sem tempo para frear, na mudança direta do verde para o vermelho, e provocar acidente. Como diz Sérgio Ejzenberg, "quando você está chegando a um semáforo, tem de receber uma informação luminosa e reagir a ela. Quando apaga (uma das luzes), você perde a reação".

O problema deve-se à falta de contrato para fornecimento de lâmpadas novas. O que existia, assinado em abril de 2011, venceu em março deste ano. Mas a CET nega a falta de lâmpadas e afirma que o caso constatado pela reportagem no Ipiranga se deveu à falha da equipe encarregada do conserto dos semáforos, que adotou procedimento não autorizado. Afirma também que são trocadas em média 1,5 mil lâmpadas de semáforos por mês e que no ano passado a Prefeitura investiu R$ 47 milhões em melhorias dos "conjuntos semafóricos da cidade". Como os casos apontados pela reportagem são comprovados, deve-se concluir que o esforço citado pela CET fica muito aquém das necessidades.

E isto não é novidade, como mostra o histórico da incapacidade da Prefeitura, neste e em governos passados, de cumprir promessas de recuperar e modernizar o sistema de semáforos. O Programa de Revitalização Semafórica, lançado com aquele objetivo em 2007, até agora deixa muito a desejar. Outro exemplo da morosidade e falta de empenho da administração na solução do problema é o caso dos semáforos inteligentes, que têm a capacidade de programar o tempo dos sinais vermelho e verde de acordo com o volume de tráfego nos cruzamentos.

Eles começaram a ser instalados em 1994 e, além de seu número ter ficado abaixo das necessidades, nunca receberam a manutenção adequada. Por isso, muitos deles perderam as funções que os tornavam "inteligentes", passando a funcionar como equipamentos comuns. Se o sistema tivesse atingido as dimensões para as quais foi projetado e funcionasse perfeitamente, poderia reduzir os congestionamentos em até 25%, segundo os especialistas. Isto mostra a importância para São Paulo de um bom sistema de semáforos.

Não é por falta de recursos que isso deixa de ser feito. É por uma escolha equivocada de prioridades na área de trânsito. Sobra dinheiro para comprar radares e aumentar a eficiência da fiscalização e o número de multas, mas não para melhorar os semáforos. Os motoristas continuam imprudentes e o trânsito, caótico.

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