Sobre a Medicina da USP - um desabafo

Entrei na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) após dificílimo vestibular, em 1965, e desde então lá me encontro, levando adiante a minha vida acadêmica, com orgulho de pertencer a essa instituição pública. A grande maioria dos antigos alunos também demonstra esse mesmo sentimento por ter-se graduado na "Casa de Arnaldo", ou "Pinheiros", como carinhosamente a chamamos, reconhecendo a formação recebida dessa escola de imensa tradição humana, científica e cultural.

Charles Mady, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2014 | 02h04

Durante o curso de graduação tive aulas com professores com perfil acadêmico do mais elevado grau, que ensinavam o lado humano, além do técnico, de minha futura profissão. Eram mestres de uma seriedade impressionante, que punham a faculdade acima de qualquer tipo de interesse e recebiam o nosso respeito e admiração. Esse perfil fez com que a faculdade se destacasse entre todas, sendo enorme sua procura nos concursos vestibulares. Aprendi, e procurei me espelhar, assim como muitos de meus colegas, em seus exemplos positivos.

Ultimamente, fatos desabonadores vêm ocorrendo não só na Medicina, mas na USP como um todo, os quais provocaram dentro e fora da faculdade indignação profunda, arranhando o nosso orgulho pela nossa casa. Quando o Instituto do Coração (Incor) quase entrou em falência, em passado recente, por má gestão; quando o alto escalão da universidade briga, ao invés de dialogar e achar caminhos para soluções econômicas; quando o alto escalão da faculdade discute de forma inapropriada com políticos pela mídia; quando um professor de Patologia reconhecido por todos como um dos mais corretos e brilhantes da Medicina pede afastamento de seu cargo; quando um empreiteiro diz que não consegue colocar um paralelepípedo sem subornar; quando um livre-docente de Pediatria denuncia em carta a um determinado jornal que não é a meritocracia que eleva indivíduos aos maiores cargos, após concursos suspeitos - uma angústia difícil de expressar se apodera da nossa mente. E se conclui que algo muito grave está ocorrendo entre nós e na gestão da maior universidade da América Latina.

Este último episódio, ou escândalo, põe novamente nossa casa nas colunas policiais. Onde falhamos?

Faz parte da atividade docente não apenas ensinar os conteúdos técnicos, mas também o comportamento ético na profissão. A acomodação e a exaltação do silêncio negam a humanização da qual não podemos eximir-nos. Não podemos desunir o ensino da formação ética dos alunos, tanto menor quanto maior a formação técnica, pelo que temos observado. Estamos formando profissionais mecanizados, mas não humanizados. A sociedade precisa muito mais de ética do que de técnica. E nós, como universidade pública, devemos satisfações a essa mesma sociedade, que nos mantém.

É difícil não fazer comparações com os últimos fatos deprimentes ocorridos neste país, que são quase certamente alguns dos muitos que ocorreram e ocorrem habitualmente, e que levaram a nossa população a um sentimento profundo e perigoso, chamado desesperança. Deve ser pensamento geral que a USP é uma amostra ou, falando em terminologia médica, uma biópsia de uma cultura decadente que se alastrou pelo Brasil. Estaríamos em curva descendente em todos os setores de nossa sociedade? Digo, com o orgulho ferido, que tudo me leva a crer que sim, em função do que também está ocorrendo na Faculdade de Medicina da USP. Nossa escola, como o serviço público em geral, tornou-se um meio de atingir prestígio e poder econômico, político e social, em vez de ser um fim em si, para melhor servir à população. Tornou-se um trampolim para o "sucesso".

Os índices de qualidade científica são ultrapassados pelos índices das colunas sociais. Corporativismos e fisiologismos com outras finalidades que não o ensino, a pesquisa e a assistência médica se difundiram. Temos um problema cultural com raízes profundas, difícil de ser extirpado. Vivemos o que costumo chamar "a democracia totalitária". Apesar da incoerência aparente de palavras, nossa pretensa democracia realmente serve a poucos, àqueles abençoados, eleitos, que se adaptam perfeitamente ao chamado "sistema", em detrimento da maioria. Isso acontece nos mais variados níveis. Será que está acontecendo também na minha faculdade? É o tudo pelo dinheiro e pelo poder. É o poder amoral.

As consequências todos sabemos, devidamente encobertas pela hipocrisia corporativa. Infelizmente, essa mentalidade faz escola, pois o mau exemplo vem de cima.

Como isso afeta a formação humana de nossos alunos? Que profissionais estamos colocando no mercado de trabalho? Vão servir, e se adaptar, a um modelo corrompido? Vão servir a quem, às grandes corporações, cuja única finalidade é o lucro, ou à sociedade? E que preço a educação e a saúde pagam por isso? As academias, no lugar de darem o exemplo e tentarem mudar, evoluir, adaptaram-se ao "sistema" e estão fazendo parte dele?

São perguntas altamente pertinentes, pois nunca se falou tanto em reformas universitárias e curriculares como nos dias atuais.

É difícil permanecer calado. Indignação é um sentimento que vem da consciência, da alma. Sei que falo em nome de muitos que não têm a oportunidade de se manifestar. Como muito bem disse Dante Alighieri, com outras palavras, o local mais quente do inferno é reservado aos coniventes, àqueles que em tempos de crise permanecem neutros. E como também disse Mahatma Gandhi, "o pior das coisas ruins de gente ruim é o silencio de gente boa".

*Charles Mady é professor associado da Faculdade de Medicina da USP e membro do conselho diretor do Incor. E-mail: charles.mady@incor.usp.br 

Mais conteúdo sobre:
Medicina USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.