Sócio problemático

Garantido pela Embaixada da Venezuela em janeiro, o empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a estatal venezuelana de petróleo PDVSA investir a parte que lhe cabe na construção de uma refinaria em Pernambuco, em parceria com a Petrobrás, ainda não saiu - e, por causa da complicada situação financeira da empresa venezuelana, parece cada vez menos provável que saia a tempo.

, O Estado de S.Paulo

13 Março 2011 | 00h00

O prazo para a PDVSA investir na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), se esgota em agosto. Findo o prazo, a Petrobrás terá que arcar, sozinha, com todo o custo do empreendimento, que, quando foi definido, previa que a estatal brasileira responderia por 60% do total e a PDVSA, pelos restantes 40%.

Essa refinaria é resultado de um acordo firmado em 2005 pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, de nítida inspiração na política externa lulista, de apoio a governantes populistas da região que tivessem um discurso antiamericano. De custo estimado na época entre US$ 12 bilhões e US$ 13 bilhões, a obra deveria estar concluída no primeiro semestre deste ano. O novo cronograma prevê sua inauguração em 2012.

Os ativos da PDVSA no Brasil limitam-se a um escritório e uma pequena rede de distribuição no Pará. Para a concessão do empréstimo, o BNDES exigiu da empresa venezuelana, como exige de outros tomadores de empréstimo, garantias compatíveis com o volume da operação. Anunciou-se que algumas exigências seriam abrandadas, mas não se sabe se, ainda assim, a estatal de Chávez terá condições de cumpri-las. A Petrobrás não dispõe de nenhuma informação oficial sobre o andamento do pedido de empréstimo da estatal venezuelana ao BNDES, disse ao Estado o diretor de Abastecimento e Refino da empresa, Paulo Roberto Costa.

Com capacidade para processar 230 mil barris de petróleo por dia, a Refinaria Abreu e Lima foi projetada para receber óleo do Campo de Carabobo, na Venezuela, e do complexo de Marlin, na Bacia de Santos, em partes iguais. Cada uma delas requer equipamentos específicos. Como tem investido sozinha, sem a garantia de que sua sócia fará a parte que lhe cabe, a Petrobrás ainda não encomendou a unidade destinada ao tratamento do óleo venezuelano.

Talvez nem tenha que instalar essa unidade. A PDVSA divulgou há algumas semanas seus resultados econômico-financeiros dos três primeiros trimestres de 2010, nos quais informa que seu lucro de janeiro a setembro do ano passado, de US$ 3,46 bilhões, foi 35,4% maior do que o de igual período de 2009. Em princípio, é um resultado apreciável. Mas há vários pontos frágeis nas contas da empresa.

Boa parte do crescimento do lucro se deve à alta dos preços do petróleo, não à melhora da gestão da empresa ou à conquista de mercados. Além disso, as demonstrações da PDVSA têm como base um volume de exportação de petróleo equivalente a 3,2 milhões de barris por dia, número do qual duvidam a Agência Internacional de Energia e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, que estimam em 2,2 milhões de barris as exportações reais da empresa.

Pior do que a situação expressa por seus dados contábeis relativos a 2010 é sua perspectiva para os próximos anos. Utilizada intensamente para financiar os programas populistas de Chávez, encobertos por pretensos objetivos sociais, a PDVSA perdeu eficiência praticamente com a mesma rapidez com que assumiu novas tarefas. Deixou de investir em novos poços e na manutenção dos existentes, o que provocou a queda de sua produção de petróleo. Tenta extrair o máximo no menor tempo possível, o que a leva a deixar nos poços óleo que nunca mais poderá ser extraído.

Nos negócios em que se envolveu, por ordem de Chávez, acumula prejuízos. Virou importadora de alimentos e, nesse ramo, teve perdas de US$ 1,9 bilhão nos primeiros nove meses de 2010. Sua dívida cresceu seis vezes na década passada. Para fazer caixa, tem vendido ativos no exterior. Como, nessa situação, poderá investir no Brasil?

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