Socorro aos frigoríficos

Depois que sete frigoríficos, classificados entre os maiores do País, entraram com pedido de recuperação judicial e 20 frigoríficos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul fecharam as portas, o governo apressa a elaboração de um plano de ajuda financeira às empresas do setor em dificuldades por causa da crise internacional.Os problemas não são apenas dos frigoríficos que pediram recuperação judicial ou fecharam as portas. Com poucas exceções, afetam todas as empresas da cadeia produtiva de carne bovina. Dada a importância do setor na produção e exportação de alimentos, as autoridades não podem se limitar a assistir à evolução dessa crise.Um caminho que o governo pode seguir é sancionar e colocar em prática o texto modificado da Medida Provisória 445, de 2008, que o Senado aprovou na semana passada, o qual autoriza a União a subsidiar os juros dos financiamentos de capital de giro de agroindústrias e cooperativas agropecuárias. Outro, que complementa o anterior, é a criação, pelo Banco do Brasil e pelo BNDES, de linhas de financiamento de capital de giro para os frigoríficos e para estocagem, que podem totalizar R$ 3,7 bilhões, segundo informação do jornal Valor.Seis meses depois de chegar ao Brasil, a crise internacional gerou um cenário desolador no setor de produção de carne bovina. Com a redução da demanda mundial de carne, a queda dos preços internacionais e domésticos, as oscilações do câmbio, a escassez mundial de crédito e o alto custo dos financiamentos, frigoríficos que tomaram recursos nos exterior para estimular os negócios passaram a enfrentar grandes dificuldades para rolar suas dívidas.Os bons resultados acumulados nos primeiros meses do ano haviam garantido aos exportadores de carne um bom desempenho em 2008, quando as vendas externas do produto foram 15% maiores do que as de 2007, superando US$ 4 bilhões. Esse valor manteve a carne bovina entre os dez principais itens da pauta de exportações do País. A tendência dos últimos meses, porém, é de queda acentuada das exportações. Em janeiro, elas foram 35% menores , em valor, do que as de janeiro de 2008. Em fevereiro, o valor das exportações foi 15% menor do que o de fevereiro de 2008.Para muitos setores da economia, o mercado interno foi a tábua de salvação nos momentos de baixa no mercado internacional. Mas também internamente a demanda de carne bovina está caindo, por causa da queda da renda da população. Produtores estimam que em fevereiro o consumo interno foi de 5% a 6% menor do que em janeiro. A entrada das exportadoras na disputa pelo mercado interno resultou numa concorrência que alguns pecuaristas consideram predatória, pois fez os preços domésticos caírem rapidamente. Na média de fevereiro, o quilo da carcaça bovina, segundo dirigentes do Sindicato das Indústrias Frigoríficas de São Paulo, foi negociado a um preço 15% abaixo do custo de produção dos frigoríficos.No início de março, o anúncio do pedido de recuperação judicial feito pelo Frigorífico Independência acendeu a luz amarela no setor. O frigorífico, em operação há 31 anos, está entre os cinco maiores exportadores de carne bovina do Brasil. Tem mais de 11 mil empregados em vários Estados e capacidade de abate de 10,8 mil cabeças diárias. No dia seguinte ao anúncio feito pelo Frigorífico Independência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com ministros e dirigentes de bancos federais e determinou a elaboração de um plano para o setor de pecuária bovina, por causa de sua importância na balança comercial e do efeito da crise sobre os pequenos produtores. É esse plano que está prestes a ser anunciado.De acordo com a Comissão de Agricultura do Senado, três grandes frigoríficos que entraram no regime de recuperação judicial deixaram de pagar R$ 500 milhões aos pecuaristas somente da Região Centro-Oeste, com efeitos negativos em toda a cadeia de produção de carnes. O senador Gilberto Goellner diz que, se nada for feito, mais de 30 mil postos de trabalho serão fechados só no Centro-Oeste.

, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

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