Solidariedade e interesse

O governo brasileiro decidiu emprestar até R$ 10 bilhões a países sul-americanos para ajudá-los a contornar a escassez de crédito internacional. O primeiro financiamento, no valor de R$ 3,5 bilhões, será concedido à Argentina, por meio de um acordo de "swap" (troca de moedas), semelhante àquele realizado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) com vários países, entre eles o Brasil. No caso da Argentina, o acordo valerá por três anos e é especialmente oportuno, porque o país continua com sérias dificuldades de acesso ao mercado financeiro global. "Trata-se de um acordo estritamente financeiro, sem implicações comerciais", segundo fontes citadas pelo jornal Clarín, de Buenos Aires. Um acerto semelhante poderá ser feito em breve com o Uruguai. Apesar de também afetado pela crise internacional, o Brasil está em condições de ajudar financeiramente os vizinhos. A iniciativa tem méritos políticos e econômicos. Mas seria também oportuno, sem abandonar as ações de solidariedade, o governo dedicar o mesmo cuidado aos interesses comerciais do País na região, a começar pelo Mercosul. As exportações do Brasil para a América Latina e para o Caribe ficaram em US$ 9,25 bilhões entre janeiro e abril deste ano. Renderam 33,2% menos que nos primeiros quatro meses de 2008. O desempenho foi pior no caso do Mercosul. O valor faturado, US$ 3,84 bilhões, foi 39,4% inferior ao de um ano antes. As vendas para a Argentina, US$ 3,05 bilhões, foram 42,1% inferiores às dos meses correspondentes de 2008. A crise internacional foi sem dúvida a causa mais importante da retração do comércio na América do Sul e no interior do bloco. Mas também é preciso levar em conta outros fatores. Um deles é o protecionismo, acirrado a partir do agravamento da crise, mas já presente de forma preocupante bem antes disso. Outro fator relevante é a penetração das exportações chinesas na região. Os acordos comerciais do Brasil com os parceiros sul-americanos têm geralmente distribuído de forma desigual as concessões, com prazos de ajuste quase sempre desfavoráveis ao Brasil. Mas a maioria dos mercados da América do Sul tem-se aberto facilmente aos produtos chineses. Em abril, o Peru tornou-se o segundo país latino-americano a firmar um acordo de livre comércio com a China. O primeiro foi o Chile. O tratado com o Peru facilitará investimentos chineses em infraestrutura, eletricidade, mineração e exploração de gás e petróleo. Com o governo equatoriano, a companhia chinesa Sinohydro assinou ainda no mês passado uma carta de intenção para construir uma hidrelétrica de 1.500 megawatts, com financiamento de 85% do valor pelo Banco da China. Na América Latina, como na África, a política de Pequim é conduzida com eficiência e pragmatismo. Pode haver atos de solidariedade, como o acordo de "swap" com a Argentina, no valor 70 bilhões de yuans, equivalentes a US$ 10 bilhões. Mas nenhum ato é desvinculado de objetivos econômicos, traduzíveis em mais exportações ou em acesso a matérias-primas. Desde o início de seu avanço na região, a China jamais ficou em posição desvantajosa em relação ao Brasil.Quando a crise atingiu com força a Argentina, o governo de Buenos Aires tratou de ampliar as barreiras contra produtos chineses, mas aumentou o protecionismo também contra a indústria brasileira. A parceria no Mercosul não proporcionou nenhuma vantagem ao Brasil. E isso não é tudo: parte do mercado perdido pelas indústrias brasileiras, por causa do protecionismo argentino, foi ocupada, nos últimos anos, por produtos provenientes de outros países, principalmente da China. Na semana passada, dirigentes da União Industrial Argentina (UIA) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) reuniram-se na Avenida Paulista. Ficou acertado na ocasião que a Argentina dará prioridade às importações de produtos brasileiros, exceto quando a indústria do país vizinho possa proporcionar-lhe autossuficiência. É um acordo basicamente defeituoso, porque autossuficiência não implica eliminação de importações. Mas este não é o principal problema: uma discussão desse tipo entre dirigentes da UIA e da Fiesp só ocorre porque o acordo oficial, entre Estados, tem sido ineficaz, graças, em boa parte, à leniência do governo brasileiro. Nenhum compromisso privado pode compensar esse defeito.

, O Estadao de S.Paulo

13 de maio de 2009 | 00h00

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