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A decisão do governo federal de intervir na segurança pública do Rio de Janeiro é apoiada por 75% dos habitantes daquele Estado, mesmo que a percepção da violência não tenha diminuído

O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 03h00

Uma pesquisa do instituto Ipsos publicada pelo Estado mostra que dois em cada três brasileiros apoiariam uma intervenção federal na segurança pública de seu Estado, a exemplo do que aconteceu no Rio de Janeiro. Esse resultado mostra não somente o fracasso das políticas estaduais de segurança pública, mas principalmente a prevalência da ideia equivocada de que a intervenção federal é a solução adequada para resolver o problema da criminalidade.

Para os que vivem nas regiões com altos índices de violência, o apoio a uma solução de força é quase natural, uma vez que, ao menos no imaginário popular, não haveria outra maneira de lidar com as organizações criminosas que há tempos infernizam a vida dos cidadãos de bem. Assim, no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, entre 71% e 80% da população aprovariam uma eventual intervenção federal, acima da média nacional, que é de 64%.

A decisão do governo federal de intervir na segurança pública do Rio de Janeiro é apoiada por 75% dos habitantes daquele Estado, mesmo que a percepção da violência não tenha diminuído. É como se a paciência da população estivesse esgotada por má gestão na área e pela impressão de que a corrupção e o crime organizado se apoderaram da administração do Estado – o que gera nos cidadãos uma sensação de desamparo. Assim, só restaria esperar que um deus ex-machina – isto é, o governo federal e o Exército –, não comprometido com nenhum dos protagonistas da crise de segurança, venha em socorro da população.

Mesmo que se saiba que a presença dos militares não resolve o problema, como se viu em dezenas de operações no Rio de Janeiro e em outros Estados, a simples visão de soldados fardados e bem armados nas ruas, circulando com carros de combate, é suficiente para trazer um pouco de alento aos que se sentem cotidianamente desrespeitados em seus direitos básicos, a começar pelo direito de ir e vir em segurança.

Não cabe, portanto, nenhum julgamento moral sobre o apoio maciço da população à intervenção federal na segurança pública e ao uso do Exército. O cidadão quer se sentir protegido, mas a polícia, que deveria desempenhar essa função, está sucateada, corrompida e desmoralizada – quando não é parceira do crime organizado.

O problema é que a intervenção federal, ao menos nos moldes da que está em curso no Rio de Janeiro, tem escassas possibilidades de sucesso. Marcada pelo improviso, a decisão de intervir na segurança pública fluminense partiu de várias premissas equivocadas, a saber: que dez meses bastariam para desbaratar as associações criminosas que dominam aquele Estado; que nesse curtíssimo período seria possível reformular a polícia, demitindo a banda podre e treinando adequadamente seus substitutos; que haveria dinheiro suficiente para toda a operação; e que seria possível regenerar o tecido social apenas com o uso da força armada e sem o emprego dos demais instrumentos do Estado.

Nenhum desses postulados provou-se verdadeiro, por razões óbvias – a implosão do edifício que décadas de delinquência administrativa erigiu é tarefa de tempo e empenho, e quem sugerir soluções mágicas será apenas irresponsável.

Mas, nestes tempos em que as instituições democráticas são desmoralizadas, o recurso à força, mesmo na forma de uma mal-ajambrada intervenção, ganha forte apelo. Assim, diante do fato de que a segurança pública será tema crucial nesta eleição, muitos apostam no discurso da truculência para ganhar votos – há até quem esteja bem posicionado nas pesquisas só por defender abertamente a tortura de suspeitos e a morte de bandidos.

É evidente que nada de bom pode advir de um clima assim. Por isso, mais do que nunca, urge que os políticos responsáveis aproveitem a mobilização eleitoral para dizer aos cidadãos, compreensivelmente irritados, que não há lei e ordem fora do respeito ao Estado de Direito e que o uso da força só será bem-sucedido se vier acompanhado do resgate da cidadania dos milhões de moradores de comunidades desamparadas, hoje sob o “governo” dos chefões do crime.

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