Sombrio cenário do emprego

O mais recente estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre as condições de emprego na América Latina mostra que o significativo progresso observado nos indicadores de emprego formal na região nos últimos dez anos ficou para trás. "Tornou-se evidente de que maneira a perda de dinamismo econômico impacta o mercado de trabalho", diz o relatório, intitulado Panorama Laboral da América Latina e do Caribe 2013.

O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2013 | 02h05

A perspectiva para 2014 é de estagnação. Na linguagem polida da OIT, o momento ainda é "positivo", mas tornou-se "desafiador", pois a bonança passou - e os governos do continente não aproveitaram essa oportunidade única para consolidar os avanços e conseguir "gerar mais e melhores empregos".

A taxa de desemprego foi de 6,3% neste ano, a mais baixa de todos os tempos. No entanto, houve redução de apenas 0,1 ponto porcentual na comparação com 2012, resultado que não se deve à geração de novos postos e, sim, ao fato de que menos pessoas estão participando da força de trabalho.

O estudo da OIT, que é feito há 20 anos, mostra os diferentes cenários do mercado de trabalho nesse período, para enfatizar que as condições conjunturais verificadas entre 2004 e 2013 foram excelentes, se comparadas à fase das sucessivas crises entre 1994 e 2003. Em vista da situação atual, a OIT questiona se 2014 marcará o início de uma nova etapa, mas já adianta que, a despeito do fato de os indicadores ainda serem positivos, o mercado de trabalho na América Latina dá sinais "preocupantes".

O principal problema é a fragilidade do crescimento econômico no continente, que deverá ser de 2,7% neste ano e de 3,1% em 2014. A OIT afirma que, para reduzir a informalidade, a expansão deveria ser de ao menos 3,4%.

Com isso, o estudo chega à óbvia conclusão de que, "se a região continuar reduzindo suas expectativas de crescimento, é provável que o desemprego não continue a cair, podendo até mesmo mudar a tendência de baixa que caracterizou os últimos anos". Para evitar que o desemprego supere 7%, será necessário criar 43,5 milhões de novas vagas na próxima década.

A taxa de desemprego no ano que vem deverá ser igual à de 2013 e, ademais, a qualidade dos empregos gerados tende a piorar - hoje, cerca de 30% dos trabalhadores latino-americanos não têm nenhum tipo de proteção trabalhista. Além da informalidade persistente, os salários médios estão crescendo menos. Após uma aceleração entre 2006 e 2011, houve alta de apenas 1% em 2013, contra 2,6% em 2012. E a produtividade dos trabalhadores da região continua abaixo da média internacional. Segundo o relatório, a produtividade da América Latina deveria crescer 140% para reduzir à metade a informalidade.

O enfraquecimento do mercado de trabalho tem afetado particularmente os jovens, alerta a OIT. Entre eles, a taxa de desemprego urbano cresceu de 14,2% em 2012 para 14,5% neste ano. Cerca de 20% dos jovens com idade de trabalhar não estão no mercado nem estudam, em razão da frustração com a dificuldade de obter uma vaga. A OIT diz que tal situação pode "perpetuar os ciclos de pobreza nas famílias e comunidades desses jovens" e "gerar questionamentos ao sistema e às instituições, podendo até mesmo afetar a governabilidade" em alguns países. Os protestos recentes foram citados como exemplo desse risco.

Para superar esses problemas, o relatório enfatiza a necessidade não apenas de estimular o dinamismo da economia, mas de realizar amplos investimentos de longo prazo em educação, "em especial quando se observa que os países da região obtiveram pontuação inferior à de outras partes do mundo em avaliações internacionais, como o Pisa".

O estudo da OIT é importante não só porque faz uma radiografia detalhada de um setor crítico para a economia, mas também porque deixa claro o esgotamento do modelo de geração de empregos baseado apenas em gastos públicos e consumo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.