Somos patriotas só na Copa?

A politicalha substituiu a política e votar virou somente obrigação de lei

*FLÁVIO TAVARES, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 03h00

A bandeira está em todas as partes, como ânimo e esperança. O Brasil está firme para enfrentar o que seja e, se depender do apoio e da euforia popular, os sonhos serão realidade. Os ensaios preliminares são positivos, ainda que nenhum ensaio seja prova definitiva para definir o futuro. As vergonhas de tempos atrás, porém, servem de pauta para que os grandes, que tudo decidem, não repitam o horror que causou o desalento.

Ninguém pense que me refiro ao Brasil nação. Tudo o que escrevi acima como introdução pode parecer uma referência a nossas esperanças quanto aos caminhos da economia e da política. Na verdade, porém, é somente uma síntese do que dizem os jornais, o rádio e a televisão sobre a seleção de Tite e seu desempenho na Copa da Rússia.

É o futebol que nos domina. As ruas estão embandeiradas e nos vestimos de amarelo, como os “raios fúlgidos” do hino. Estamos a poucos meses da eleição presidencial, mas o atual arco político é tão pobre e medíocre que nem percebemos que o nosso futuro depende disso e apostamos só na Copa do Mundo.

A eleição parece traste velho cheio de cupim, que jogamos no porão escuro, preparando a mudança para a casa nova. Mas a casa nova não existe. Os presidenciáveis repetem lugares-comuns, cada qual supera o outro ao apontar coisas iguais em idênticas bravatas, sem ir às causas profundas das incertezas.

O palavrório esqueceu-se do que é notório. A politicalha substituiu a política e votar virou apenas obrigação imposta pela lei, uma formalidade que a maioria cumpre sem o ardor cívico de antigamente, quando a urna definia posições e caminhos para o futuro.

Ou, se assim não fosse (pois os “enganadores” já existiam e a palavra enganosa já fora plantada), as demagógicas promessas fáceis apareciam como dívida. E, na eleição seguinte, cobrava-se a dívida desprezando o demagogo devedor. 

Por isso, agora é tempo de bandeiras, fitinhas verde-amarelas dependuradas em bares, restaurantes, residências ou escolas, universidades e, até, hospitais. Estamos em busca de esperança. Ou de crer em algo. A orgia patriótica que reaparece a cada Copa do Mundo não se desfez sequer com o fiasco do último campeonato, quando os alemães nos meteram 7 a 1 goela abaixo (ou gol abaixo), como aqueles antigos purgantes. Amainou-se, talvez, mas o “grande astro”, hoje, é o futebol, não a eleição.

Recordo 1950, ano de eleição presidencial e da Copa do Mundo, a primeira após a 2.ª Guerra e também a primeira disputada aqui. Nada, porém, amorteceu a expectativa político-eleitoral. Ao contrário, Copa e eleição disputavam uma corrida, cada qual buscando gerar mais atração. Ainda não tínhamos sido despolitizados e desesperançados pelos escândalos (como hoje) nem os partidos (como agora) tinham virado gazua para assaltar o cofre-forte público.

Os candidatos presidenciais representavam posições, traziam um passado como credencial. Podiam ser elogiados ou criticados, ou ter adeptos e desafetos, mas Getúlio Vargas, Eduardo Gomes, Christiano Machado e João Mangabeira eram o que diziam ser. Por isto foram o núcleo das expectativas mesmo em plena Copa. Quando o Uruguai nos derrotou na partida final, nenhum deles sequer usou a tragédia como catapulta eleitoral.

Hoje, os candidatos e as candidaturas marcam a diferença de outros tempos de democracia. Por que dar atenção a palavras vãs, sem apoio no passado e sem presença no presente, quando temos a realidade dos dribles de Neymar?

Em 1950, a grande e experiente estrutura não era a do futebol, mas a dos presidenciáveis. Agora, ao contrário, neles tudo é difuso. Existe até mesmo um aprendiz de Hitler, cheio de ódio e agressividade, fantasiado de messias para sensibilizar os eleitores.

Lembram-se do “Lulinha paz e amor”, a maquiagem que o contundente líder sindical do ABC paulista usou para se mostrar amplo e compreensivo e ser eleito após três derrotas consecutivas?

Ao votar em alguém que não era aquilo que dizia ou aparentava ser, o eleitor abriu caminho a que o próprio Lula acreditasse que era outro, não ele próprio, mas alguém que ele mesmo nunca havia pensado ser. E se associou ao PP de Paulo Maluf e ao PMDB para abrir as portas da Petrobrás ao roubo despudorado, em nome da “governabilidade”. Concretizava-se o ensaio de anos antes, no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando o suborno construiu a emenda constitucional da reeleição.

Como corolário, Lula, o presidente operário, acabou se jactando de que “nunca os bancos lucraram tanto” quanto em seu governo. E a contradição absurda instalou-se na visão de governar.

Num tempo em que a sociedade de consumo destrói toda ética, num canibalismo individualista em que o coletivo não existe, o engano passou a ser o único valor a cultivar. O “próximo” de que falam os Evangelhos já não existe. Na área pública ou privada, os que decidem agem de forma unilateral, buscando apenas o que lhes convenha.

Na ansiosa busca de votos, o único compromisso é receber votos. Na verborragia eleitoral, todos falam em “segurança pública”, como se guardassem no bolso a poção mágica do problema. Não apontam as causas profundas da violência (a ignorância como a principal) nem buscam saber por que morrem aqui, por homicídio, mais do que na carnificina da guerra civil da Síria.

É desnecessário mencionar o resto. As bandeiras nas ruas pela Copa falam também do que ocultamos. Seremos mesmo patriotas, ou apenas “pátria-otários”, escrito assim, com hífen, para mostrar que nem a palavra existe e que somos patriotas apenas na Copa?

*JORNALISTA E ESCRITOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005 E PRÊMIO APCA EM 2004

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.