Sonhos, morte e esperanças

Os milhares de imigrantes sírios e de outras nacionalidades do Oriente Médio que cruzam a fronteira oriental com a União Europeia para chegarem à Alemanha estão descobrindo o que significa solidariedade. Depois de dias e noites enfrentando o perigoso mar e andando de país em país em busca de refúgio, a Alemanha abriu-lhes as portas. A morte do menino Aylan, na costa da Turquia, foi o alerta que fez disparar o sentimento de solidariedade cristã no coração dos governantes e dos cidadãos.

Ricardo Vélez Rodríguez, O Estado de S. Paulo

15 Setembro 2015 | 03h00

Angela Merkel, a chanceler alemã, tornou-se porta-voz dos sentimentos da maioria dos seus compatriotas quando declarou que a questão dos refugiados, antes de qualquer outra coisa, é uma um problema moral. A Alemanha, que na 2.ª Guerra Mundial se transformou em forno crematório de judeus, nos dias atuais mostra o fundo humanitário e cristão que anima o coração dos seus cidadãos. Digna lição de solidariedade de um país que, se causou morte e destruição com o nazismo, atualmente abre as suas fronteiras, como porto seguro, para os infelizes que querem somente uma coisa: viver em paz.

Com Angela Merkel, os alemães apresentam-se ao mundo com a face da civilização cristã ocidental, pensada ao longo da História pelos filósofos de quem Immanuel Kant, no século 18, virou o grande ícone, ao traduzir para os conceitos frios da filosofia o calor do mandamento da caridade. Afinal, foi o pensador de Königsberg que formulou, na Fundamentação Metafísica dos Costumes, a nova concepção da caridade cristã contida no mandamento evangélico “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, proferido por Jesus Cristo nas últimas palavras pronunciadas antes da sua morte. Ora, esse mandamento central do cristianismo foi vertido por Kant, em linguagem filosófica, no seu imperativo categórico “trata a pessoa do teu próximo sempre como fim e nunca como meio”. O grande pensador completou a sua visão da moral, que deveria inspirar a política, com a formulação do segundo preceito, que a tornaria uma prática a serviço da comunidade: o imperativo da transparência, contido no seu opúsculo intitulado A Paz Perpétua.

A partir da posição firmada por Angela Merkel, inspirada no humanismo kantiano, os europeus passaram a considerar a questão dos imigrantes vindos do Médio Oriente não como ameaça, mas como algo que lhes diz respeito. Não é a primeira vez que países de Ocidente abrem as suas portas para refugiados perseguidos por guerras de religião ou conflitos internacionais. O Brasil acolheu no seu seio, desde o século 19, milhares deles. Os Estados Unidos firmaram a sua presença como grande potência mundial justamente ao ensejo da abertura das suas fronteiras aos milhões de refugiados que ali buscaram um canto pacífico onde morar e construir a sua vida. O nascimento da grande nação americana foi fruto, aliás, dos imigrantes europeus que buscavam liberdade, como testemunha a declaração dos “pilgrim brothers”. A Ilha Ellis, na Bahia de Nova York, perto da Estátua da Liberdade, é ainda um cenário que nos lembra essa multitudinária busca pela América.

Mais recentemente, e no contexto dos sangrentos conflitos desatados pelos cartéis das drogas (dos quais as Farc, na Colômbia, são um deles), o país vizinho teve de organizar, dentro das suas fronteiras, a acolhida para mais de 2 milhões de refugiados internos, vítimas da última fase da guerra, que se estendeu de 1978 a 2002 e deixou um saldo trágico de mais de 400 mil mortos. Ora, nem o Brasil do final do século 19 e das primeiras décadas do século seguinte, nem os Estados Unidos com os milhões de refugiados europeus que receberam, nem a Colômbia com os seus milhares de refugiados internos foram à falência por causa deles. Ao incorporá-los à sua vida diária, esses países deram uma prova de grandeza e, ao mesmo tempo, dinamizaram a sua economia. Algo semelhante ocorrerá com a Europa Ocidental a partir da abertura decretada por Angela Merkel, que certamente se traduzirá numa nova política de acolhimento de refugiados, pela mesma Europa Ocidental, ao longo dos próximos anos.

Uma consideração tocante sobre esses fatos: lembro a figura do menino Aylan, o anjinho sírio morto por afogamento numa praia da Turquia. A sua fotografia percorreu o mundo e abriu as portas dos corações e das fronteiras numa Europa receosa com a onda migratória.

Em comovente reportagem feita por Paulo Moura, do jornal Público, de Lisboa, em 13 /9, o jornalista entrevista Ahmad, um dos refugiados sírios que chegaram com a mulher e os filhos à Alemanha. A respeito da perigosa aventura vivida por eles na longa viagem desde o sul da Síria, frisa Ahmad: “E a Hungria foi a grande surpresa. Inicialmente, fomos bem recebidos, com umas senhoras a darem comida e roupa, as televisões a fazerem entrevistas. Mas à noite, quando as câmeras se afastaram, e ficamos sozinhos com a polícia, a atitude mudou completamente. Trouxeram carros e levaram-nos para a prisão”.

Pois foi nessas circunstâncias, escreve Paulo Moura, que Ahmad leu a notícia sobre a morte de Aylan, o menino sírio de 3 anos encontrado sem vida na praia, porque o barco onde viajava para a Grécia havia naufragado, exatamente como aconteceu com Ahmad e sua família. “Foi a primeira vez que chorei”, frisa Ahman. “Pensei em Yussef, que também tem 3 anos. (...) Temos de agradecer a Aylan, porque foi a tragédia dele que mudou as atitudes na Europa. Yussef agora odeia o mar, diz que não quer ir à praia nunca mais. Mas Aylan morreu para que nós chegássemos aqui.”

*Ricardo Vélez Rodríguez é membro do centro de pesquisas estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor emérito da Escola de Comando e  Estado-Maior do Exército (ECEME), é docente na Faculdade Arthur Thomas, em Londrina (PR). E-mail: rive2001@gmail.com

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.