Sopro de otimismo

Há um sopro de otimismo no cenário econômico - muito leve, por enquanto, mas claramente identificável. As coisas pararam de piorar, segundo os mais cautelosos. A atividade chegou ao ponto mais baixo, o famoso fundo do poço, e dará sinais de lenta recuperação dentro de alguns meses. Os mais animados olham para a frente, para o início da reativação. Nos Estados Unidos a recuperação poderá começar, vagarosamente, em 2010. Na Europa, o próximo ano ainda será uma fase de convalescença. Para os países emergentes, incluídos o Brasil e vários vizinhos sul-americanos, a volta ao crescimento poderá ocorrer num prazo menor. "As coisas claramente se estabilizaram", disse o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, num evento organizado pela revista Newsweek. "O ritmo de queda da maioria dos indicadores da atividade econômica se desacelerou fortemente", acrescentou. Em linguagem mais comum, o quadro parou de piorar ou a piora está perto do fim. Mas o governo, acrescentou, manterá os estímulos fiscais até os negócios ganharem impulso suficiente para dispensá-los. "Mas a recuperação", ressalvou, "não será estável e regular. Será desigual e frágil durante algum tempo."O economista Robert J. Gordon, professor de Northwestern University e membro do National Bureau of Economic Analysis (Escritório Nacional de Análise Econômica), foi mais audacioso ao expor a conclusão de um estudo que o levou a acreditar que a recessão acabou. Ele baseia essa afirmação num exame dos vários episódios de recessão nos Estados Unidos a partir de 1974. Em todos os casos, segundo Gordon, o pico do desemprego ocorreu poucas semanas depois do ponto mais agudo da crise. Esse pico, de acordo com sua avaliação, deve ter ocorrido em abril. Os dados subsequentes parecem confirmar esse ponto de vista, comentou num artigo publicado nesta semana o economista Donald Luskin, chefe do setor de investimentos da empresa de consultoria Trend Macrolytics. A ousadia de Robert J. Gordon é especialmente notável porque o National Bureau of Economic Analysis é o órgão responsável pelos diagnósticos de recessão aceitos como oficiais nos Estados Unidos. As avaliações são geralmente publicadas meses depois do início ou do fim de cada fase recessiva, quando todos os dados já estão disponíveis.As expectativas também melhoraram na América Latina, segundo sondagem realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com o instituto alemão Ifo. A pesquisa envolveu consultas a 136 especialistas em 16 países. Seu resultado mostra uma atitude ainda cautelosa, mas com sensível melhora das expectativas. A sondagem permite a produção de dois indicadores básicos, medidos numa escala de 1 a 9 pontos. O Índice de Situação Atual (ISA) caiu de 3,4 pontos em janeiro para 2,5 pontos em abril. Essa queda corresponde, claramente, ao período de maior impacto da crise nos países da região. No Brasil, a redução foi de 4,7 para 3,7 pontos. A média de 10 anos havia sido 5,5 pontos, só inferior à do Chile, 6 pontos. Em outras palavras: ao longo desses quatro meses, a crise importada foi sentida em toda a sua gravidade. Foi como se a ficha tivesse caído, finalmente (no Hemisfério Norte a recessão havia começado já em 2008). Em contrapartida, o Índice de Expectativas (IE) subiu de 2,3 para 4,6 pontos, entre janeiro e abril, aproximando-se da linha divisória entre pessimismo e otimismo. Os maiores índices coletados em abril foram os do México (5,7), do Brasil (5,4) e do Chile (5,3), todos acima do limite. As avaliações mais pessimistas foram encontradas no Uruguai (1,0), na Bolívia (1,0) e na Venezuela (1,6). Essa melhora das expectativas é compatível, no Brasil, com alguns indicadores positivos de emprego e de consumo. Mas o realismo recomenda alguma cautela na leitura desses indicadores. O aumento do emprego formal, em abril, foi concentrado nos setores de serviços, agricultura e construção e afetado por fatores sazonais. Além disso, a criação de empregos com carteira assinada foi quase nula na indústria de transformação, o principal foco dinâmico da economia brasileira. Há condições para uma reativação dos negócios neste ano, mas o deslanche só ocorrerá com segurança quando mais segmentos industriais ganharem impulso.

, O Estadao de S.Paulo

20 de maio de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.