Superlotação no mercado

O governo brasileiro deveria dar mais atenção ao sinal de alerta do FMI: o mercado financeiro poderá ser um lugar muito perigoso, nos próximos anos, para quem precisar de grandes empréstimos e tiver de rolar grandes compromissos. O alerta foi geral, sem destinatário certo, e quem tiver juízo tomará cuidado. Nos próximos três anos, os maiores bancos afetados pela crise enfrentarão vencimentos de US$ 5 trilhões. Como os governos das maiores economias estão pesadamente endividados, a briga pelo dinheiro disponível poderá ser feroz. Com os gigantes em disputa num mercado apertado, os outros tomadores, públicos e privados, serão jogados para fora ou forçados a pagar juros muito altos pelo crédito.

, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2010 | 00h00

Ocorreu algo parecido há cerca de duas décadas e o fenômeno ficou conhecido como "overcrowding", algo como "superlotação". Nessa superlotação os grandões e gordos amassam os menores. Os vilões, neste momento, são os governos dos países mais desenvolvidos. A dívida pública do Grupo dos 7 (G-7) - formado pelos EUA, Canadá, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália - aproxima-se do nível mais alto desde o fim da 2.ª Guerra Mundial, cerca de 120% do PIB.

Por enquanto, o problema dos emergentes é o excesso de capitais em busca de lucros maiores que os obtidos no mundo rico. Em alguns, o ingresso de dinheiro especulativo cria o risco de bolhas, provocando a supervalorização de imóveis e de outros ativos e, no caso do Brasil, do real. O governo brasileiro tem festejado a novidade: noutras crises, o capital era desviado para outros destinos, considerados mais seguros.

As autoridades têm razão quando alardeiam essa diferença. Depois de longo trabalho de ajuste, o País tornou-se um porto confiável para os investidores. Mas essa conquista pode ser perdida, se as políticas prudentes forem abandonadas - e o governo tem mostrado inequívoca disposição de seguir caminhos perigosos.

O sinal mais evidente é a rápida expansão do gasto público de custeio. Parte desse gasto é dificilmente comprimível, porque é formado por salários e benefícios previdenciários. A política federal continua frouxa em relação a esses pontos, mas outros itens de custeio também têm aumentado. Com isso, cresce a dívida bruta do setor público. No mundo desenvolvido, dá-se mais atenção à dívida bruta do que à líquida. Há boa razão para isso. Os ativos acumulados pelo governo podem sumir, mas os credores continuarão querendo receber o total de seus créditos.

Outro sinal inquietante é a deterioração das contas externas. Estima-se para este ano um déficit em conta corrente próximo de US$ 50 bilhões. Em 2011 o valor poderá chegar a uns US$ 60 bilhões. O investimento direto estrangeiro dificilmente cobrirá esse buraco. O País ficará na dependência de outro tipo de financiamento, mais especulativo, menos seguro e menos produtivo para a economia.

Mesmo essas projeções podem conter uma dose de otimismo imprudente. Quando piora severamente o quadro internacional, os financiamentos podem secar de uma hora para outra e até países com risco moderado podem ficar sem recursos. O Brasil já passou muitos apertos em situações de crise internacional e os condutores da política econômica não deveriam esquecer essas agruras.

A economia brasileira cresce com vigor, mas os sinais de risco são evidentes. O descompasso entre exportações e importações é apontado pelas autoridades como consequência inevitável e temporária da atual fase de expansão econômica. Mas não será temporária, se as condições de competitividade não melhorarem. Além disso, é imprudente depender apenas dos juros para ajustar o ritmo de crescimento e neutralizar as pressões inflacionárias. O ajuste custará mais do que o necessário, se o governo continuar gastando mais do que deve. Além disso, contas públicas precárias tornam o País mais vulnerável a problemas externos. Os novos perigos à frente, no mercado internacional, tornam mais necessária a gestão prudente das contas públicas e das contas externas - assuntos desagradáveis em tempo de eleição.

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