Supremacia branca e totalitarismo

É inacreditável que hoje surja nos EUA a defesa enganosa desta ideia fundada na cor da pele

ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR*, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 03h00

A doença social autodenominada supremacia branca, que pretende diferenciar as pessoas em função da cor da pele, vem de longe e foi defendida durante séculos pelos piores seres humanos que já passaram pela Terra. É inacreditável que ameace vicejar nos dias presentes.

No século 18, ao mesmo tempo que o canto de sereia marxista seduzia e enganava pessoas, sobretudo intelectuais, uma outra corrente totalitária também ganhava expressão: o darwinismo social, versão política da famosa teoria da evolução das espécies. Essa teoria procurava ser evolucionária para as instituições políticas e sociais, partindo da convicção de que a ordem natural da vida sempre se desenvolve na forma de luta e somente o mais apto sobrevive.

Um desses totalitários, Ludwig Gumplowicz, tentando avançar socialmente a partir do ponto em que Darwin parara, demonstrou todo o seu desprezo pela democracia: “O domínio da maioria sobre uma minoria é tão inconcebível quão absurdo. É da natureza das coisas que uma pirâmide deve repousar sobre uma base larga, tornando-se cada vez menor à medida em que sobe para o topo. É impossível colocar uma pirâmide de cabeça para baixo, com sua base larga suspensa no ar. De igual maneira, é da natureza do governo que ele só pode existir com o domínio da minoria sobre a maioria”.

Contaminado por essas ideias, o conde Arthur de Gobineau passou a defender abertamente a “superioridade natural e inerente da pele branca” e com isso preparou o palco para o racismo do nacional-socialismo alemão, que veio a seguir.

Gobineau só perdeu em radicalismo para outro entusiasta da supremacia branca, Stewart Chamberlain, para quem o mero contato com o não-ariano era perigosos: “Muitas vezes basta apenas relação frequente com judeus, ler jornais judeus, acostumar-se à filosofia, à literatura e arte judaica para infeccionar o ariano”.

Fundado nesses vergonhosos sentimentos, ele passou a recomendar a deportação de todos os judeus da Europa. E proclamava que eram a Alemanha e os povos germânicos que representavam a verdadeira encarnação do arianismo, a quem o destino confiara a responsabilidade de impedir a decadência racial.

Paralelamente ao darwinismo social, com apoio de Mussolini, o filósofo Friedrich Nietzsche também passou a defender que a única força motivadora não é apenas uma simples compulsão de sobreviver, “mas uma vontade de controlar e dominar todos os outros, é uma vontade de poder”.

Fundado nessas convicções, imaginou como ideal um conceito de universo dividido: uma parte com vontade forte, ou seja, uma raça de super-homens que governa por moral baseada na nobreza da força; e a outra parte, de vontade fraca, a ser governada por moral diferente, dedicada a servir aos seus superiores.

Essas convicções sociológicas totalitárias, depois batizadas de irracionalismo, tiveram muita força à época, por pregarem devoção a uma elite e a virtude da violência. Não foi surpresa que desaguassem naquilo que de pior aconteceu nos últimos cem anos: o fascismo, o comunismo e o nazismo.

Sempre é bom lembrar que o pior de todos esses totalitários, Adolf Hitler, nutria verdadeiro ódio racial aos judeus e talvez odiasse a si próprio. Ao referir-se à sua saída da Áustria, por exemplo, para iniciar vitoriosa carreira política, ele escreveu: “Desde que comecei a tomar conhecimento e interessar-me pelos judeus, Viena apareceu-me sob uma luz diferente. Aonde quer que eu fosse, começava a ver judeus e, quanto mais eu via, mas claramente eles se tornavam aos meus olhos distintos do resto da humanidade. Haveria alguma espécie de imoralidade ou devassidão, particularmente na vida cultural, sem pelo menos um judeu envolvido nela? Se alguém cortar, mesmo cautelosamente, um desses abscessos, encontrará, como um verme num corpo que apodrece, muitas vezes ofuscado pela luz repentina, um judeu”.

Outro trecho de seus discursos é bastante expressivo da discriminação racial pela cor da pele: “Com satânica alegria no rosto, o jovem judeu de cabelos pretos se embosca à espera da incauta moça que ele conspurca com seu sangue, roubando-a assim de seu povo. Assim como ele próprio sistematicamente arruína mulheres e moças, não se furta a derrubar as barreiras de sangue para outros. Foi e é o judeu que traz os negros para a Renânia, sempre com o mesmo pensamento secreto e objetivo claro de arruinar a odiada raça branca pela bastardização cultural e política e erguendo-se ele próprio para ser o seu senhor”.

Parece inacreditável que, mesmo após o exemplo de sofrimento da humanidade nos últimos cem anos, por força de radicalismos e da pretensão de domínio da maioria pela minoria, venha agora a surgir no país de maior expressão do mundo democrático, os Estados Unidos, a defesa enganosa de uma classe sobre outra, fundada na cor da pele.

É inacreditável, também, que ainda não estejam sepultadas definitivamente as diferenças de convicções sociais que levaram aquele país à Guerra de Secessão e hoje se materializem na pretensão de derrubar a estátua do lendário General Lee, considerado um herói pelos sulistas derrotados naquela disputa.

O mais assustador neste panorama de exaltação da supremacia branca é que o próprio presidente da República, Donald Trump, propaga a impressão de ser um de seus representantes, circunstância que o deixa sob luz negra e desmerece sua escolha para dirigir o país, que tem a marca de ser multirracial e de haver acolhido imigrantes de quase todo o mundo.

Saudações nazistas e exaltação da cruz suástica nas redes sociais são o contrário daquilo que os soldados americanos, brancos e negros, além de indígenas, defenderam na Europa, em defesa da democracia e das liberdades.

* ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR É DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DA JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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