Surdez progressiva

Túnel das Sensações. Assim se chama um curioso corredor existente na Villa Ambiental, espaço de referência na educação ambiental paulista. Ele mexe com a cabeça das crianças. Mas também impressiona os adultos.

Xico Graziano, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2011 | 00h00

Situada dentro do Parque Villa Lobos, ali na Marginal do Pinheiros, na capital paulistana, a Villa Ambiental está recheada de ferramentas pedagógicas que servem ao programa Criança Ecológica, conduzido pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Ela busca transmitir aos alunos do ensino fundamental, com idade entre 8 e 10 anos, o dilema da sustentabilidade humana; 18 mil crianças, acompanhadas por suas professoras, já passaram por lá em excursão. Nenhuma voltou para casa como chegou.

No Túnel das Sensações percorre-se um pequeno, embora denso e fechado trajeto, onde em silêncio as crianças sentem as emoções brotar à flor da pele. Cheiros, sons, temperatura, umidade, cores e objetos reproduzem alguns ambientes básicos da existência humana. Primeiro, um ecossistema natural onde prevalece a energia dos recursos hídricos. Nele tudo é azul.

Escondidos alto-falantes murmuram o toar de uma cachoeira, enquanto borrifadores umidificam a atmosfera do percurso. Ouve-se o som molhado da água das chuvas e se visualizam, nas paredes, belíssimas imagens de recantos que acalmam o espírito. Barulho, somente o ronco das trovoadas. Tocante.

A criançada, na sequência, entra no trecho dedicado a reproduzir o local das florestas. Ali, na agenda da biodiversidade, predomina o verde, cujo ambiente selvagem traz novas sensações à pele. O frescor permanece, mas nesse momento pássaros assobiam sua melodia contagiante. Silenciosamente encantador.

Por fim, no terceiro segmento do túnel, que inteiro mal mede 20 metros, muda completamente o cenário. Logo ao se transpor uma cortina, fotos de terríveis queimadas indicam a devastação florestal, o ambiente se aquece. Lâmpadas simulam o calor das ilhas de asfalto, lixo se acumula nas beiradas, fumaça enegrece o ar. Caminhando lentamente se percebem roncos angustiantes, buzinas ensurdecedoras. "Socorro", dizem muitas crianças nesse trecho final de seu aprendizado ecológico.

A cidade de São Paulo acaba de completar 457 anos. Loas são-lhe, merecidamente, dedicadas, homenageando sua história, em que se misturam jesuítas, bandeirantes, comerciantes, operários, industriais, agricultores, homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros, imigrantes e nordestinos. O coração do Brasil pulsa na capital paulista.

Que incrível metrópole essa gente toda construiu com seu trabalho, obstinação, idealismo ou ganância. Desde quando o eixo econômico do País se deslocou para o Sudeste, na sequência do ciclo da mineração, a vila erguida nos campos de Piratininga deslanchou rumo ao progresso. Sabe-se, é evidente, que muita miséria e sofrimento se espalham nas esquinas de suas ruas, ou se escondem nos buracos dos viadutos.

Mas já foi pior. O poder público, juntamente com a iniciativa privada, conseguiu aos poucos chegar às periferias, antes tragicamente carentes de qualquer beneplácito urbano. Basta reler São Paulo: Crescimento e Pobreza, importantíssimo livro publicado pelo Cebrap (1975), para se ter uma ideia da melhoria conseguida na qualidade material de vida dos paulistanos.

Nessa mesma época, começava a engrossar em São Paulo o drama contemporâneo da poluição do ar. Chaminés de fábricas e, posteriormente, escapamentos de veículos começaram a sujar a atmosfera, e a entupir os pulmões das pessoas. Não tem sido fácil essa batalha, a Cetesb que o diga. Mas as melhorias nos motores de combustão, o etanol carburante, os filtros, novas tecnologias, transporte público, tudo isso operou, e com a fiscalização, para manter a situação sob controle. Infelizmente, o desafio do ar limpo, e da saúde pública, ainda continua ameaçador.

Recentemente, uma boa invocação dos prefeitos José Serra e Gilberto Kassab atacou outra frente da sujeira paulistana: a poluição visual. Outdoors, cartazes, faixas, placas competiam entre si e com os luminosos de néon para ver quem mais estragava a cara da metrópole. Passada a incredulidade inicial, a novidadeira política fez a cidade grande se mostrar mais bela.

Chegou a hora de São Paulo enfrentar nova briga, agora contra a poluição sonora. Está ensurdecedora a capital paulistana. Sim, já existem leis de combate ao ruído, que poderiam, talvez, ser mais rigorosas. Mais importante, porém, falta prestar atenção ao assunto, retirando-o da trivialidade. Guerra contra o barulho.

Na subida da Rua da Consolação, por exemplo, chega a ser impossível conversar no ponto de ônibus ou no boteco da padaria. No trânsito, motos disputam campeonato de algazarra com ônibus, caminhões e ambulâncias, torpedeando nossos ouvidos. Surdez progressiva.

Proponho lutar contra a balbúrdia dos escapamentos abertos, ônibus assobiantes, caçambas desparafusadas, obras estrondantes, música zoada. Chega de tolerar a ruína de nossos ouvidos, como se a modernidade exigisse vida estrondosa. Nada disso. Paz para os ouvidos!

Mônica, minha esposa, afirmou-me noutro dia que as motocicletas de Tatuí, sua terra natal, são as mais estrondosas do mundo. Fiquei em dúvida. Mas é verdade, sim, que muitas cidades médias também andam contaminadas pelo ruído perverso. Está aí uma boa razão para São Paulo sair na frente. Dar o exemplo.

Quando as pessoas da roça vêm para São Paulo, parecem-se com as crianças que visitam o Túnel das Sensações da Villa Ambiental. Acostumadas ao silêncio do interior, assustam-se com o alvoroço da cidade grande. O barulho ergue uma divisória entre o mundo rural e o urbano. Isso poderia acabar.

Viva a quietude!

AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL:

XICOGRAZIANO@TERRA.COM.BR

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