Suserania e vassalagem

Marcelo Bahia Odebrecht, presidente da empreiteira que leva seu nome, estava se sentindo absolutamente em casa durante o depoimento prestado à CPI da Petrobrás, na última terça-feira. Embora preso desde 19 de junho no âmbito da Operação Lava Jato e formalmente acusado pelo Ministério Público Federal de fraude em licitação, corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro, Marcelo parecia estar entre amigos, recebendo os deputados para uma conversa no Paraná. Responsável por mais de R$ 100 milhões em doações eleitorais a políticos somente em 2014, o empresário sabia que, como suserano, não seria constrangido por seus vassalos.

O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2015 | 03h00

Conhecidos pela virulência com que habitualmente interrogam os convocados a depor, alguns integrantes da CPI exibiram ao empreiteiro a subserviência típica de quem considera mais importante o doador de campanha do que o eleitor que lhe conferiu o mandato.

O deputado Altineu Côrtes (PR-RJ), que costuma ser um dos mais agressivos, demonstrou como pode ser flexível a espinha de um parlamentar diante de um poderoso patrocinador de palanques. “Senhor Marcelo, é a primeira vez que tenho a oportunidade de estar pessoalmente com o senhor”, disse o deputado, emocionado como um fã diante do ídolo.

Em seguida, relatou, como se fosse seu, o “orgulho” dos funcionários da Odebrecht em relação a seu presidente.

O relator da CPI, o petista Luiz Sérgio (RJ), referiu-se a Marcelo como “jovem executivo de uma das mais importantes empresas brasileiras” e defendeu os acordos de leniência para que a Odebrecht “possa se manter”. Outro petista, o deputado Valmir Prascidelli (SP), levantou a bola para Marcelo, ao lhe perguntar se achava justa a sua prisão mesmo tendo se colocado à disposição da Justiça, ao que um comovido Marcelo respondeu: “Agradeço muito as perguntas que o senhor está fazendo, porque elas seriam minhas respostas”. Mesmo um deputado de oposição como Bruno Covas (PSDB-SP) foi bastante compreensivo com quem tem tantas contas a acertar com a Justiça. Quando Marcelo se desculpou por não poder responder a uma questão do parlamentar, trocou gentilezas: “Não precisa pedir desculpas”.

Marcelo Odebrecht sentiu-se à vontade para abrir mão de sua estratégia de permanecer calado. Sorridente, fez confidências sobre como educa suas filhas – disse que, se uma fizesse algo errado e a outra a “dedurasse”, ele brigaria com quem delatou, e não com quem perpetrou o malfeito. A isso o jovem empresário deu o nome de “valor moral” – uma moral mais apropriada a uma organização mafiosa, em que o abominável delinquente é aquele que delata o crime, e não aquele que o comete.

Ciente de que seu cliente estava perto de confirmar que havia algo a dizer a respeito da atuação da Odebrecht no petrolão, o advogado de Marcelo chamou sua atenção: “Mas você não tem nenhuma delação para fazer. Marcelo, você não tem atos para delatar”. Em seguida, o empreiteiro, em resposta a uma pergunta sobre se faria a delação, respeitou a linha de sua defesa e disse que, “para alguém dedurar, é preciso ter o que dedurar, esse é o primeiro fato, e isso acho que não ocorre aqui”.

Quando o deputado Carlos Andrade (PHS-RR) disse que a Odebrecht é vista no País como uma empresa “envolvida no maior escândalo de corrupção”, Marcelo respondeu que essa percepção se deve não a fatos concretos, mas a um “fenômeno de publicidade opressiva” – e afirmou que contava com a ajuda dos deputados para resolver esse problema.

O empresário espera mesmo que os parlamentares convençam os brasileiros de que todas as acusações contra ele e sua empreiteira são falsas – e, mais, que são prejudiciais ao País, pois, “quando há um problema na Odebrecht, quem perde é a sociedade brasileira”.

Questionado sobre se permanece a favor do financiamento privado de campanhas – isto é, se pretende continuar a fazer suas generosas doações –, o empreiteiro obviamente respondeu que sim. Sua plateia ouviu essas declarações com visíveis sinais de alívio. 

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