Tecendo a rede de aprendizagem

O paradoxo da produtividade se refere à contradição aparente que ocorre quando um avanço tecnológico significativo é acompanhado por um declínio na produtividade. Por exemplo, com o advento dos motores elétricos, a produtividade nos Estados Unidos encolheu por mais de dez anos. A eletricidade não facilita a produção? O que poderia ter causado essa queda?

David Cavallo*, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2014 | 02h07

Não é que as novas tecnologias não conduzissem à produtividade. O problema é que os processos das tecnologias prévias permaneciam vigentes, negando o potencial do novo. A resistência à mudança triunfou sobre os benefícios da inovação. Isso sugere que a mentalidade dos responsáveis era ainda mais rígida que os paradigmas obsoletos.

O uso das tecnologias digitais para a aprendizagem segue esse mesmo padrão. Muitos estudos comprovam a obtenção de pequenos triunfos, mas eles estão muito aquém dos benefícios que os computadores catalisaram em virtualmente todos os demais campos. Como podem os computadores e a conectividade permitirem um incrível ganho no conhecimento e mudarem completamente o mundo, e ainda não transformarem a educação, cuja função é o desenvolvimento do conhecimento?

Assim como ocorreu quando da apropriação de outras tecnologias, os computadores atualmente são utilizados da mesma forma que tecnologias antigas. Nós os usamos para apresentar informações a estudantes passivos e testá-los na rememoração de informações. A inutilidade de tal abordagem, quando virtualmente todas as informações estão apenas a um clique de distância, é perturbadora - um testemunho das mentes fechadas à mudança apesar da avassaladora aceitação de necessidade de transformações.

Um foco na informação é obsoleto. Raciocínios profundos, criatividade, colaboração e comunicação são os talentos que precisamos desenvolver. Ainda assim, nós seguimos agindo como se o mundo fosse do mesmo jeito que era cem anos atrás e nunca tivéssemos aprendido sobre a aprendizagem. O computador é a melhor ferramenta inventada para a aprendizagem e a disseminação do conhecimento, ainda que na educação nós o utilizemos de modos que removem sua potência. É como se utilizássemos um chassi de Fórmula 1, porém retirando seu motor e esperando que assim ele se tornasse um veículo mais rápido.

Os velhos modos de pensar compelem os educadores a utilizar vídeos no computador. Mas, se a transmissão de vídeos não transformou a educação, o que nos faz pensar que o streaming na rede poderia fazer isso? Os velhos modos de pensar ameaçam o potencial de personalização ao reconhecer que todos nós aprendemos de maneiras diferentes, mas somente modificam a forma de apresentação da informação. Os velhos modos de pensar até mesmo incorporam a nova terminologia, ainda que as ideias e práticas frequentemente sejam subvertidas e despotencializadas.

Compete-nos repensar o como, o que, o quando, o onde e o com quem dos processos de aprendizagem. Nós sabemos que todos aprendem melhor quando estão ativamente implicados na aprendizagem por meio da ação, especialmente com o amparo de especialistas renomados e apaixonados.

A computação permite tornar concretas, pessoais, ativas e conectadas algumas áreas mais abstratas da matemática e das ciências, consideradas de difícil compreensão quando utilizados meios mais passivos. Isso é possível pela utilização do computador como ferramenta para construção, expressão e comunicação de ideias.

A rede possibilita não apenas a conexão com a informação, mas, mais importante, a interação com especialistas que talvez não estejam localmente disponíveis. Por exemplo, no passado, o limite para o conhecimento matemático de alguém seria o alcance do conhecimento de seu próprio professor. Nas áreas rurais ou em locais onde professores de alto nível são escassos, esse é um grande problema. A solução, portanto, não é televisionar aulas, e, sim, fazer matemática com os matemáticos espalhados pela rede.

O desenvolvimento de habilidades do século 21 não ocorrerá se os alunos receberem passivamente informações padronizadas. Esse desenvolvimento só pode ocorrer por meio de práticas ativas e reflexivas.

Foi pouco explorada a necessidade de repensar o modo como buscamos as transformações sistêmicas. Aqui, também, nós confiamos em métodos obsoletos e ignoramos o valor da rede. Enquanto a rede transforma o mundo e a aprendizagem ocorre em nível global, quando pensamos em modificar a educação agimos como se ainda estivéssemos amarrados em concepções ultrapassadas. Da mesma forma que a rede possibilita a aprendizagem individual, ela também auxilia na aprendizagem sistêmica.

Todos concordam sobre a importância da educação de alta qualidade para todos para criar uma sociedade justa, sustentável, democrática e economicamente viável. As limitações do sistema atual também são amplamente conhecidas. O paradoxo mais perturbador é que, apesar dos problemas, não há vontade de uma mudança real, que não seja apenas superficial e provisória.

Ao Brasil não faltam crianças brilhantes. Também não faltam professores dedicados e profissionais criativos. O Brasil é o lar de muitas inovações educacionais, sociais e tecnológicas.

O que se precisa é de visão, comprometimento e liderança daqueles que estão nas posições mais elevadas. Talvez, mais importante, sejam necessárias ações ousadas. O que se precisa é de mais oportunidades e recursos para criar ambientes inovadores de aprendizagem, especialmente para aqueles a quem isso era anteriormente negado. Se o Brasil realmente se comprometer com a criação de um mundo educacional apropriado aos tempos modernos, será possível criar o Brasil que o mundo sonha, e o Brasil pode liderar a criação de sociedades justas, sustentáveis e diversificadas.

*David Cavallo é professor visitante da Universidade Federal do Sul da Bahia e é director executive do Learning Propulsion Laboratory.

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