Teerã responde a Obama

Se ainda gritam "Morte aos Estados Unidos", as multidões iranianas o fazem antes por hábito do que por instigação. A ascensão de Barack Obama e as suas iniciativas de degelar as relações entre os Estados Unidos e a "República Islâmica" - como ele se dirigiu, pelo nome oficial, ao país que o seu antecessor tachava de expoente do "eixo do mal" - obrigaram Teerã a reconhecer que "as circunstâncias mudaram". Foram essas as palavras do presidente Mahmud Ahmadinejad em discurso transmitido em rede nacional, na quarta-feira. Há cerca de um mês, quando Obama enviou ao Irã uma inédita mensagem em vídeo, propondo "um novo começo" para os dois países, o aiatolá Ali Khamenei, o guia supremo da teocracia xiita, retrucou que, antes de mais nada, Washington teria de pedir desculpas pelos seus atos hostis ao regime, a começar do apoio ao Iraque na guerra com o Irã nos anos 1980.Pelo menos a linguagem agora é outra. Ahmadinejad afirmou no seu discurso que "o Irã é capaz de esquecer o passado e iniciar uma nova era de diálogo e cooperação construtiva (com os Estados Unidos) baseada no respeito e na justiça". Em um tom inédito em seus quase quatro anos no poder, marcados por pronunciamentos inflamados contra o "Grande Satã", ele considerou "excelente" que os americanos tenham dito que queiram resolver as questões com o Irã por canais diplomáticos. E, mencionando explicitamente a mais espinhosa delas - o programa nuclear iraniano -, anunciou que prepara "um pacote que servirá de base para resolver o problema". O Irã sustenta que o objetivo do programa é pacífico, mas é certo que foi concebido para dotar o país da tecnologia que lhe permita eventualmente produzir a bomba.A recusa iraniana em abrir as suas instalações de enriquecimento de urânio a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) levou o Conselho de Segurança da ONU a impor sanções econômicas a Teerã. Estima-se que o país já disponha de cerca de 5.500 centrífugas para aquele fim e tenha acumulado uma tonelada de urânio levemente enriquecido. Israel qualifica o programa como uma "ameaça existencial" e já advertiu com todas as letras que não hesitará em bombardear os centros nucleares iranianos antes que o artefato fique pronto - o que se supõe que levaria de 2 a 5 anos, a partir da decisão de fabricá-lo. Na realidade, não há solução militar para o problema. Os especialistas duvidam de que ataques aéreos bastem para incapacitar o Irã, e a alternativa de uma invasão por terra está além das possibilidades israelenses. O problema é que não se conhecem os limites do radicalismo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e de seu chanceler Avigdor Lieberman - e muito menos as reações de Washington a um ataque unilateral de Israel ao Irã.Para os Estados Unidos - que precisam do Irã não só para garantir a paz civil no Iraque, mas também para o suporte logístico da nova fase da guerra contra o Taleban no Afeganistão, anunciada por Obama -, o extraordinário desafio é chegar a uma acomodação com Teerã, pela qual o país abriria mão, para todos os efeitos práticos, de ingressar no clube atômico (de que Israel é membro não assumido) sem desistir do domínio do ciclo do combustível nuclear, a que tem direito, sob fiscalização da AIEA, como signatário do Tratado de Não-Proliferação. O diretor da agência, Mohamed El Baradei, externando uma opinião amplamente compartilhada, entende que os iranianos estão determinados a dominar a tecnologia da bomba, ainda que não a produzam, "pois isso traz poder, prestígio e uma apólice de seguro". Um dos equívocos colossais da política iraniana do governo Bush foi ignorar, na determinação de Teerã de enveredar pelo campo nuclear, tanto o papel desempenhado pelo orgulho nacional por sua civilização milenar como a sensação de assédio embebida no país - e que só se aprofundou com a ocupação americana do Iraque. Os EUA também se recusavam a participar das negociações multilaterais com o Irã sem o prévio congelamento de suas atividades nucleares. Na terça-feira, na véspera, portanto, do pronunciamento conciliador de Ahmadinejad, o New York Times noticiou que o governo Obama desistiria da exigência. A se confirmar, será um passo inteligente - mas apenas um no que se afigura uma longa e incerta jornada.

, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2009 | 00h00

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