Tempestade à frente

Com diferença de 2% dos votos, Dilma Rousseff reelegeu-se, propondo união em seu discurso de candidata vencedora, o que é natural dizer tão logo obtida a magra vitória. Mas não foi bom sinal a falta de menção ao adversário portador de mais de 50 milhões de votos. A isso se somam o temperamento da reeleita, o processo eleitoral e de novo a ideia de plebiscito, fatores indicativos de como será difícil a propalada união.

*Miguel Reale Júnior, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2014 | 02h04

Grande parte da sociedade votou em Aécio Neves, e também contra Dilma em repúdio ao PT, cujo tom na campanha aumentou sua taxa de rejeição em três regiões do País. Esse sentimento, prevalecente em metade do Brasil, só cresceu em face do modo desabusado do PT na desconstrução dos adversários Marina Silva e Aécio. Ficaram marcas que uma conversa de fim de festa não tem o condão de apagar.

Para avaliar a desfaçatez basta lembrar que, após Dilma ter sido agressiva com Marina em debate televisivo, esta se queixou chorosamente no carro, ao sair do programa, da violência com que fora tratada, sendo tal fato relatado pela imprensa. Dilma comentou a sensibilidade da adversária considerando-a pessoa fraca, pois, a seu ver, presidente precisa saber enfrentar percalços todos os dias, sem choro.

Em debate, no segundo turno, no SBT, a candidata Dilma, após fazer a Aécio uma acusação inverídica, recebeu, em retorsão, o comentário de estar sendo leviana. Tal foi o suficiente para se transformar a fortaleza Dilma, mulher forte para os percalços diários da Presidência, numa mulher frágil, mãe e avó, nos dizeres do propagandista Lula, sendo Aécio apresentado continuamente como homem agressivo com as mulheres. Lula, em seu histrionismo, chegou a tratar a disputa presidencial como briga de rua, indagando se Aécio teria o mesmo comportamento diante de um homem.

Importa registrar a forma como se fez a dedução da contundência de Aécio, extraída de termo normal em debate franco - "leviana" -, utilizado por Lula em debates anteriores, para se concluir que seria homem agressivo em face de uma frágil avó e, logo, também violento com os pobres.

De outra parte, o anúncio aos mais pobres de corte dos benefícios sociais, como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, foi outra falsidade largamente espalhada à boca pequena. Esse vale-tudo mostra o que pode ser o futuro exercício do poder.

Os dias a vir apresentarão fortes conturbações no campo da economia, com inflação e estagnação, já se reconhecendo no próprio governo o estado de recessão técnica. Dados do Ipea, maliciosamente não divulgados antes das eleições, serão publicados com um retrato real de nossa situação social e econômica, sem as maquiagens dos marqueteiros da rainha. Mas, além do quadro econômico, há uma crise política à frente.

O PT, Dilma e Lula abriram baterias contra a revista Veja por ter publicado parte do depoimento do doleiro Alberto Youssef. Importante, todavia, é o conteúdo do que foi revelado nos depoimentos do doleiro, tão ou mais gravemente retratados pelos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo da véspera da eleição, dia 25 de outubro.

Em matéria de autoria do jornalista Mário César Carvalho afirma a Folha: "O doleiro Alberto Youssef disse em sua delação premiada que soube que o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teve conhecimento do esquema de propina na Petrobrás após a eclosão da crise do mensalão, em 2005". O delator conta também, segundo noticia a Folha, ter sido procurado pelo presidente do PP à época, José Janene, para discutir como acalmar os deputados do partido, descontentes com a perda do financiamento ilícito que recebiam via mensalão.

Frisa a Folha ter o doleiro dito que a presidente Dilma Rousseff tinha conhecimento do esquema de desvios de recursos e completa: "As citações a Dilma e a Lula foram reveladas pela 'Veja', mas duas pessoas que acompanham a investigação confirmaram à Folha que Youssef mencionou a atual e o ex-presidente em depoimento".

Por sua vez, o Estado de dia 25, em matéria assinada pelos jornalistas Ricardo Brandt e Fausto Macedo, traz a lume a grave acusação de ter o doleiro Alberto Youssef afirmado, na delação premiada, que o então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva teria dado ordem em 2010 ao então presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, para que resolvesse pendência com agência de publicidade suspeita de integrar o esquema de corrupção na Petrobrás. Em continuação, a notícia do Estado explicita: "Youssef afirmou que, depois da suposta ordem, Gabrielli teria acionado o então diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, outro personagem central do caso, e pedido para que ele usasse 'o dinheiro das empreiteiras e passasse para a agência'".

Essas indicações do doleiro, dadas a conhecimento não pela considerada arqui-inimiga Veja, mas por dois jornais que confirmam a matéria da revista, não foram acompanhadas de provas, mas o Ministério Público e a Polícia Federal deverão prosseguir nas investigações. Essa questão grave, com certeza, será objeto de averiguação também pela oposição liderada por Aécio Neves, um candidato à Presidência com mais de 50 milhões de votos. Os tempos próximos são tempestuosos.

A vitória nas eleições não representa uma absolvição antecipada com relação aos comportamentos atribuídos a Dilma e a Lula, sujeitos ainda a comprovação, é certo, mas que não podem ser considerados inexistentes em razão da conquista eleitoral.

Não se deve fustigar a continuidade da disputa eleitoral, mas é inafastável o clima deixado pela forma como o PT realizou a desconstrução dos "inimigos". Por outro lado, a apuração mais profunda dos fatos trazidos pela delação do doleiro só tornará mais aguda a crise da República.

É esse o quadro preocupante que se apresenta a nossos olhos e desafia nossa prudência.

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ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA

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