Tempo de baixar a inflação

O governo tem uma nova oportunidade para baixar a meta de inflação - fixada em 4,5% para este ano e o próximo - e aproximá-la dos padrões adotados nas economias mais desenvolvidas e com preços mais estáveis. O Conselho Monetário Nacional (CMN) deve definir em junho a meta para 2011 e as condições são especialmente favoráveis a uma política anti-inflacionária mais ambiciosa. A economia brasileira deverá voltar a crescer no segundo semestre e a recuperação deverá continuar em 2010, mas sem esgotar a capacidade produtiva. Há muito espaço para se expandir a produção sem criar pressões muito fortes sobre os preços. O governo perdeu uma oportunidade semelhante em 2007, quando o aumento de preços, no meio do ano, indicava uma inflação abaixo do limite da meta. Ao insistir na meta de 4,5%, o CMN enviou ao mercado um sinal de frouxidão. As projeções de inflação foram aumentadas e, assim, se criou uma expectativa desfavorável a um ajuste mais firme do custo de vida. Neste momento as projeções apontam, novamente, para um resultado abaixo do centro da meta. Segundo a pesquisa Focus, do Banco Central (BC), instituições financeiras e consultorias estimam para este ano uma inflação de 4,33%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado para calibrar a política anti-inflacionária. Para 2010 está projetada uma variação de 4,30%. Os cálculos para os demais indicadores de preços são igualmente favoráveis e não apontam pressões significativas. Essas projeções são compatíveis com expectativas, colhidas na mesma pesquisa, de redução de 0,53% do PIB em 2009, com moderada recuperação (3,50%) em 2010. A produção industrial, segundo esses cálculos, diminuirá 4,26% este ano e crescerá 4% no próximo. Essa expansão se dará a partir de uma base deprimida e com grande folga para aumento da atividade. Segundo as últimas estimativas divulgadas pela FGV, a indústria ocupou, em abril, 78,3% da capacidade instalada. Em maio do ano passado, com a economia crescendo aceleradamente, a ocupação era de 86,1%. Segundo avaliação do BC, o Brasil entrou na crise, no trimestre final do ano passado, com potencial de crescimento econômico de 5%. Esse potencial não deve ter variado, a partir desse momento, porque os investimentos perderam impulso e o parque de máquinas e equipamentos não se expandiu. Quando o impulso de recuperação for mais sensível, provavelmente a partir do fim do ano, o potencial de crescimento deverá corresponder àqueles mesmos 5% estimados em 2008.Se a expansão do PIB em 2010 confirmar a previsão de 3,50% coletada na pesquisa Focus, ainda haverá uma boa sobra de capacidade e, portanto, os preços ainda serão pouco pressionados. Além disso, a indústria, nessa altura, já deverá ter retomado os investimentos em máquinas e instalações e em 2011 o potencial produtivo já terá sido ampliado. Se essas avaliações forem realistas, será possível perseguir uma inflação mais baixa - provavelmente 4% - sem o BC ter de elevar novamente os juros durante um ou dois anos ou, pelo menos, sem ter de provocar um novo choque no custo do dinheiro. Mas a busca de uma inflação mais baixa com juros também reduzidos é tarefa para todo o governo. Fixada a meta, é obrigação do BC tentar alcançá-la com os meios disponíveis para a política monetária e de acordo com sua avaliação das condições da economia. Em outras palavras, a tarefa será tanto mais fácil quanto maior a colaboração dos demais setores do governo. Essa colaboração não tem ocorrido. O Tesouro continua gastando muito mais do que deve e o superávit primário - o dinheiro separado para o serviço da dívida pública - só foi alcançado nos últimos anos, e até com folga, porque a tributação cresceu de forma acelerada. As contas públicas, neste ano, já estão em grande parte comprometidas com despesas de custeio dificilmente redutíveis, por causa do inchaço da folha de salários e encargos. Se o governo tivesse adotado há mais tempo uma política fiscal mais prudente, a política monetária teria produzido o mesmo resultado, ou talvez melhor, com juros mais baixos. Se o presidente da República se convencesse desta verdade, a economia brasileira seria grandemente beneficiada.

, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2009 | 00h00

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