Tempos difíceis na Argentina

À presidente da Argentina, Cristina Kirchner, parece não ter restado alternativa senão desqualificar, como impatrióticas, conspiratórias ou simplesmente golpistas, tanto as acusações judiciais que agora pesam formalmente sobre seus ombros, relativas ao caso da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), quanto a crescente mobilização cívica que lhe cobra transparência.

O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2015 | 02h05

Nos últimos dias, acossada por uma opinião pública cada vez mais hostil, Cristina está sendo obrigada a recorrer a todo o seu arsenal de argumentos delirantes para tentar mostrar aos argentinos que nada é o que parece - aliás, uma especialidade dos governos latino-americanos dito "progressistas", exercida sempre que a realidade desmente sua propaganda.

A presidente Cristina Kirchner vem tentando fazer os argentinos acreditarem na legitimidade de seus acordos com o Irã, feitos, segundo ela, para ajudar a esclarecer as responsabilidades pelo atentado contra a Amia, em 1994, que deixou 85 mortos. Mas, segundo a acusação agora tornada oficial, esses acordos podem ter servido na verdade para encobrir a cumplicidade de autoridades iranianas no terrível ataque, em troca de alguns benefícios comerciais do Irã para a Argentina.

Foi em razão dessa suposta manobra que o promotor Alberto Nisman, responsável pelas investigações do caso, pretendia envolver Cristina no processo - o que o tornou alvo preferencial da ira kirchnerista.

Mas ele apareceu morto, com um tiro na cabeça, um dia antes da data marcada para detalhar ao Congresso suas suspeitas. Antes de qualquer conclusão oficial sobre o crime, a presidente Cristina Kirchner logo difundiu a tese de que Nisman havia se matado e que tomou essa drástica decisão porque percebera que "sua denúncia era muito frágil".

Quando surgiram contradições a respeito dessa versão, Cristina deu uma guinada espetacular e passou a dizer que não tinha "nenhuma dúvida" de que Nisman fora assassinado. Mas a nova tese veio acompanhada da acusação de que o assassinato tinha como objetivo prejudicar seu governo.

De novo, Cristina partiu para o terreno em que se sente bem mais à vontade - o do confronto com inimigos inventados. Segundo ela, nunca antes a Justiça argentina teve tanto apoio para punir malfeitores como durante a era kirchnerista. É a tática da mistificação tanto do presente quanto do passado - quando, segundo Cristina, "eles" cultivavam a impunidade.

O caso da morte de Nisman é cercado de mistério e pode ser - dando-se a Cristina o benefício da dúvida - que o governo tenha sido realmente pego de surpresa e, portanto, não teve participação direta nos atos que levaram à morte do promotor.

No entanto, foram tantas e tão reiteradas as interferências de Cristina nas instituições democráticas da Argentina ao longo desses anos todos que nenhuma promessa de transparência, nesse ou em qualquer outro caso envolvendo o governo, poderá ser levada a sério por qualquer pessoa de bom senso.

O Judiciário, por exemplo, está há tempos constrangido pelo Executivo. Além disso, apesar dos recentes reveses, o governo ainda tem maioria no Congresso. A imprensa independente, por sua vez, se vê cada vez mais ameaçada por manobras governistas. Assim, Cristina tem a seu dispor considerável margem para construir as versões que lhe sirvam.

Agora, no entanto, com o cadáver de Nisman a assombrar a Casa Rosada, sempre restará a impressão de que a presidente não tem a menor intenção de esclarecer nada e, portanto, de que tem algo a esconder. Como resposta, Cristina faz apelos por "união nacional" - subentendendo-se que aqueles que não aderirem a esse chamamento serão imediatamente qualificados de golpistas.

Como Cristina Kirchner ocupa um cargo que tem entre suas atribuições garantir a estabilidade institucional do país, e a presidente é hoje, ao contrário, fonte de violenta polarização, pode-se esperar tempos ainda mais difíceis pela frente na Argentina.

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