Tendência irreversível

O que você faria para transformar o nosso sistema educacional atual de tal forma que ele passe a garantir educação de qualidade para todos? Antes de responder, lembre-se de que você não pode mudar os papéis de educadores ou alunos ou alterar a governança distribuída entre União, Estados e municípios; nem pensar em muitas mudanças no currículo, nos espaços, horários ou rotinas das escolas; e, claro, em direito adquirido ninguém toca. Você provavelmente chegará à mesma conclusão que nós: não há como realizar transformações urgentes sem inovações disruptivas e em escala.

PRISCILA CRUZ E RAFAEL PARENTE, O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2015 | 03h02

Mas o que é inovar em educação? O termo viralizou recentemente nos meios educacionais e hoje é utilizado por líderes dos três setores sociais no Brasil e no mundo, possivelmente com significados bem diferentes. Em nossa concepção, inovar em educação é criar e implementar, com sucesso, novas ferramentas, metodologias ou modelos que tornem a gestão de escolas e redes mais eficiente demonstrando melhoras efetivas na aprendizagem dos alunos. A inovação pode ou não incluir computadores, aplicativos e internet, ocorrer de baixo para cima ou o contrário, começar com programas de governo ou a partir de iniciativas dentro de uma sala de aula, ser incremental ou radical, relacionar-se a conteúdos, a métodos ou à gestão.

Seja qual for o caminho, o primeiro passo é desenvolver uma cultura de inovação nas escolas, nas secretarias e no ministério. Os educadores e gestores precisam assumir o compromisso contínuo com a busca, a adaptação e o desenvolvimento de práticas que tenham por objetivo a excelência na aprendizagem dos alunos e o preparo deles para a complexa vida do século 21. Isso significa ampliar a escala de soluções que apresentem evidências de sucesso, com coragem suficiente para romper modelos que podem ter servido no passado, mas que já não dão conta dos desafios contemporâneos.

Há várias razões pelas quais precisamos inovar. A principal delas não é novidade para ninguém: o nosso sistema educacional é atrasado e extremamente ineficiente. Quase metade dos jovens brasileiros não conclui o ensino médio na idade adequada e a principal causa do abandono escolar é o desinteresse. A escola não se mostra relevante ou capaz de motivá-los. Menos de dois em cada dez jovens brasileiros de 17 anos têm conhecimentos básicos e essenciais relacionados à interpretação de texto e ao raciocínio lógico matemático. 

A segunda grande razão é o desenvolvimento cada vez mais veloz das tecnologias e da ciência em geral. Mas as escolas e redes de ensino se descolaram dessa evolução. Equipamentos e internet de qualidade, por exemplo, são realidade para poucas salas de aula. No campo da ciência, descobertas importantes sobre o modo como o cérebro aprende e conecta ideias e conhecimentos não chegam ao cotidiano escolar – muitas vezes não conseguem sequer passar pelas barreiras ideológicas das universidades. 

Finalmente, a terceira razão fundamental diz respeito à equidade. O nosso país é enorme e ainda muito desigual do ponto de vista socioeconômico. Isso só mudará definitivamente quando as camadas mais pobres da população tiverem oportunidades educacionais tão boas quanto as que têm as mais favorecidas. É uma agenda do século passado que precisa ser cumprida ao mesmo tempo que avançamos nas questões citadas anteriormente. E acreditamos que por meio da inovação isso é possível.

Bons exemplos de ações, programas e políticas públicas inovadoras podem ser encontrados no Brasil e no mundo, mas boa parte ocorre localmente e não é reconhecida e nem estimulada pelo governo. O modelo atual de sistema inibe a proatividade, a criatividade e a inovação.

Para ganharmos escala é preciso que os líderes governamentais deixem de agir só como aqueles que cobram e controlam e passem a ser os que buscam, reconhecem, estimulam e disseminam soluções inovadoras criadas localmente. Alguns exemplos disso são a Innovation Zone de Nova York, as práticas de personalização na Colúmbia Britânica (Canadá), a formação entre pares da Austrália, o Portal Rioeduca e os Ginásios Experimentais da cidade do Rio de Janeiro, o Instituto Chapada (Bahia) e o Ginásio Pernambucano. Um movimento real de inovação na educação demanda foco, vontade política, estratégias inteligentes, boa articulação e ações que podem até ser impopulares num primeiro momento. A evolução incremental do que temos hoje, o mais do mesmo, já não é suficiente. Mais do que nunca, o tempo atual nos obriga a inovar, com doses enérgicas de transformação, em cada uma das áreas da política educacional, da formação dos professores ao currículo, das avaliações ao financiamento.

Para concluir, é preciso entender e respeitar a capacidade dos jovens de inovar e de transformar a própria realidade. Temos de valorizar as mudanças que a juventude vem propondo e reconhecer iniciativas de movimentos que estimulam a inventividade, a produção e a inovação por meio da colaboração em rede, como o Movimento Maker, os Fab Labs, entre outros.

Quando tivermos um ecossistema que estimule e apoie pessoas inovadoras e dê suporte integral a grandes avanços de colaboração, imaginação e superação, teremos professores e alunos líderes e protagonistas de soluções para novos e velhos problemas, teremos gestores à frente de instituições criativas e teremos famílias participando de uma jornada real de transformação positiva. Esse é o modelo que queremos e de que precisamos para atingir nossos maiores objetivos. Essa é a escola que possibilitará a nossos jovens sonhar e realizar cada vez mais.

Priscila Cruz é mestre em administração pública pela Havard KEnnedy School, fundadora e diretora executiva do movimento todos pela educação. Rafael Parente é phD. em educação pela New York University, é fundador e CEO do Laboratório de Inovação Educacional (LABI) e da Aondê Educacional.

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